Arquivo para Março, 2008

o equinócio e o yin & yang

Hoje conversei com duas amigas muito queridas pelo Skype, simultaneamente, num chazinho da tarde virtual entre o Brasil, a França e a Holanda. Não sei como, mas acabamos falando sobre equinócios… O que são eles? Qual é o movimento que a Terra faz ao longo do ano? O que acontece durante os equinócios e solstícios?

Não, a gente não é estudante de física… As três, totalmente leigas, chegaram à conclusão, com uma certa ajuda da Wikipedia, de que a duração dos dias e noites muda durante o ano porque a Terra é tortinha. Isso mesmo, tortinha…

Equinócio em latim significa noites iguais e é o momento do ano em que os dias e as noites têm a mesma duração, em ambos os hemisférios. É o equilíbrio da luz do verão e da sombra do inverno, que acontece na primavera e no outono. O equilíbrio dos opostos, em que um dia tem 12 horas de luz e 12 horas de escuridão, em qualquer ponto do globo.

O que me remeteu imediatamente ao símbolo yin-yang dos chineses, que mostra o equilíbrio entre as duas polaridades. Cada uma contendo em si a semente da outra.

Agora, nós do hemisfério sul estamos na metade branca do símbolo (yang), que contém em si o princípio oposto. Ou seja, saímos do verão, luminoso, entramos no outono, em que a luz vai diminuindo progressivamente até chegarmos à escuridão do inverno. E o hemisfério norte, ao contrário, está na metade escura do símbolo (yin), que contém o princípio luminoso. Ele saiu do inverno, passa pela primavera e chega à luz do verão.

Os solstícios (inverno e verão) seriam representados pelos dois pontos, na borda do círculo, em que a escuridão cessa e se torna luz ou vice-versa.

É! Descobri o Brasil!!!

Sem brincadeira… Agora fui procurar na Internet uma imagem pra colocar aqui e achei exatamente um diagrama mostrando como os chineses criaram o símbolo ao fazer a medição da sombra de um bastão ao longo do ano, calculando assim a duração da rotação da Terra em torno do Sol e os solstícios e equinócios… Clique na imagem pra ver a explicação (em inglês).

yinyangsolst.gif

Só lembrei do que a Camila falou: “se a terra fosse retinha, em vez de tortinha, seria um tédio!” E o símbolo do yin yang provavelmente seria um círculo branco com um círculo preto no centro. Ou o contrário disso.

P.S.: Em breve traduzo a página em inglês aqui, porque vale a pena.

P.S. 2: Engraçado pensar que a conversa com as meninas lá no hemisfério norte aconteceu exatamente nessa época de equilíbrio entre a luz e a sombra, no norte e no sul… ao acaso, sem nenhuma combinação… hehehe

mochileiros das galáxias

Adoro viajar. Arrumar a mochila é um dos meus maiores prazeres, porque tem aquele saborzinho do desconhecido que se aproxima, da curiosidade em relação ao que vou encontrar no destino. Será que vai fazer frio ou calor? Será que vai ter repelente? Levo protetor? Levo esse ou aquele livro pra me acompanhar? Levo as fotos da última viagem para mostrar aos amigos que vão me receber?

Esses tempos andei estudando um pouco de astrologia, basicamente o meu mapa e o de algumas pessoas próximas. E cheguei a uma conclusão assustadora: esqueci minha escova de dentes!!!

Cuma?

Explico: o mapa revela as energias que estavam atuantes no momento do nosso nascimento, como uma espécie de assinatura astral. Do mesmo jeito que ganhamos um nome dos nossos pais quando nascemos, ganhamos um desenho do Universo quando entramos nesse planeta.

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Mas como não somos marinheiros de primeira viagem, prefiro pensar nesse desenho não como o nosso nome definitivo, mas simplesmente como um mapa da bagagem que trazemos para essa temporada no Planeta Azul.

Às vezes o mochileiro das galáxias pensa que ele é aquilo que tem dentro da mochila: aquela calça que já anda sozinha e é tão confortável, as fotos já borradas da viagem anterior, aquele cobertorzinho que ele gosta tanto ou aquela meleca grudada no fundo que ele não sabe o que é e nem de onde veio. Mas como um bom mochileiro, sabe que no final tudo isso vai ficando pelo caminho, e que as coisas de fato importantes e preciosas que encontra, guarda em outro lugar.

O mochileiro não é a mochila, mas é dela que estamos falando aqui. Afinal, é importante para um viajante saber o que levar consigo e o que deixar para trás não só antes de embarcar numa jornada, mas também ao longo do caminho.

Daí que comecei a ver o meu mapa como um retrato dessa mochila que arrumei não lembro quando e que está cheia de coisas úteis que me ajudam na minha viagem, que tornam mais fácil o meu caminhar e me levam a paisagens tão belas que eu provavelmente nunca havia imaginado quando coloquei essas coisas lá dentro.

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Por outro lado (sempre tem outro lado aqui nesse planeta…), tem umas tranqueiras das quais eu achava que ia precisar que se revelaram completamente inúteis, e o peso delas deixa as costas arqueadas e faz com que aquela praia tão bonita pareça estar tão looooooonge…

E enquanto a gente vai tentando se livrar dessa tralha toda, descobre também que esqueceu de trazer algumas coisas indispensáveis pra nossa viagem… Essas são as coisas que a gente tem de encontrar por aqui, em algum lugar, com alguma pessoa, com um grupo, em alguma situação. Uns chamam isso de lições que a gente tem de aprender, mas na verdade se tratam apenas de uma ou outra coisinha que a gente esqueceu lá em casa.

E nesse caso, tudo bem, porque o Universo é generoso e tem o dom da sincronicidade para colocar o item esquecido bem na frente do nosso nariz quando mais precisamos dele. O único problema é que nem sempre a gente enxerga esse item, ou porque esqueceu os óculos na beira da piscina ou porque nem se lembra mais de como ele é, já que faz tanto tempo que não o vê. Às vezes a gente até esquece o que é que estava procurando e só vê a cobra depois de ter tomado várias picadas.

caminhantes2.jpgPor essas e outras, é bom procurar os viajantes mais experientes… Eles sabem bem como arrumar a mochila e onde podemos encontrar aquilo que esquecemos. Eles também conhecem os lugares que devem ser visitados, onde estão as paisagens mais bonitas, os mais altos mirantes… E também sabem onde é que a gente não deve pisar. Além de estarem sempre dispostos a emprestar o shampoo e fazer companhia por um trechinho da trilha…

Esses viajantes também podem nos ajudar a tirar de dentro da nossa bagagem algo que era extremamente útil e que havíamos esquecido que estava ali. E, outras vezes, nós mesmos vamos descobrir que aquela velha meleca constrangedora no fundo da mochila pode se transformar numa cola muito útil para remendar um furo na barraca do nosso guia…

O importante é sempre olhar pra dentro da mochila e perceber qual objeto ali escondido pode ser usado naquele exato momento. O mapa astral funciona como um raio X da nossa bagagem, com o qual a gente pode enxergar as coisas que trouxemos. Mas pra usá-las, não tem jeito… Tem de enfiar a mão lá dentro pra puxar aquele par de meias limpas… Ou até mesmo tirar toda a bagunça pra fora pra descobrir que o canivete suíço estava todo o tempo dentro do bolso.

Assim, as tranqueiras também vão encontrando sua utilidade ou simplesmente sendo descartadas pelo caminho, dando lugar a uma nova bagagem, numa infinita jornada…

E mesmo quando a gente descobre que esqueceu algo tão essencial quanto uma escova de dentes, não é preciso entrar em pânico. Por ser assim tão imprescindível, o Universo sempre dá um jeitinho de colocar não só uma, mas várias escovas de dentes no balcão da farmácia mais próxima.

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*****

P.S.: No livro Mochileiro das Galáxias, que comecei a ler, em inglês, há muito tempo e nunca terminei, o extraterrestre Ford fala pra gente sempre, mas sempre, levar uma toalha de banho, a coisa mais útil desde o Sistema Solar até a última das nebulosas desse Universão velho sem porteira… Fiquei pensando o que seria essa toalha de banho… Será que é algo que eu não consigo enxergar? Mmmm…. De qualquer forma… Don’t panic!

So long and thanks for all the fish, diriam os golfinhos.

meu seriado favorito

Taí, esse vai ser um post diferente, nada de verso porque preciso mesmo é de um dedo de prosa. Acabei de assistir ao seriado Scrubs (Sony, 23h30). Faz tempo que eu não via nada que gostasse tanto na televisão, depois de muito tempo sem ver televisão. Confesso que já faz uns dois meses que assisto religiosamente esse enlatadinho mais do que simpático sobre médicos inexperientes fazendo residência num hospital americano. Mas esse seriado não tem nada de Plantão Médico, nada de dramalhão e nada de George Clooney.

Pra começar, é uma comédia com toques de nonsense. Todos os acontecimentos são narrados pelo protagonista principal, o residente John Dorian, ou J.D. pros íntimos(porque é fácil transformá-lo em melhor amigo depois de dois ou três episódios). O nonsense fica por conta das cenas imaginadas por J.D. no meio do expediente. Basta ele virar os olhinhos pra cima e lá vamos nós… acompanhando os delírios quase sempre bizarros do protagonista.

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Apesar do humor versátil de Scrubs, que flerta com o insólito, com diálogos rápidos e sarcásticos e até mesmo com um pastelão divertidíssimo, a comédia não é o ponto mais forte do seriado. Nem as desventuras amorosas de J.D. com a bonita e um tanto quanto neurótica Eliot, sua amiga e colega de trabalho. O legal da série é uma coisa que raramente se vê na televisão: coração.

Não me entenda mal… Na TV a gente vê coração de todos os jeitos: corações partidos na novela das oito, corações apaixonados nos filmes de Hollywood, corações vermelhos em propagandas de chocolate, corações abertos em nome da ciência e corações batendo em comerciais da Coca-Cola.

Mas o coração de que falo aqui é esse que bate dentro do peito mesmo… Sem sentimentalismo, sem paixonite, sem drama. Esse coração que sabe o que é importante na vida, que sabe que não é a Coca-Cola, o carrão, a moça da propaganda de cerveja ou os milagres da ciência que fazem um ser humano feliz de verdade.

O que me leva a pensar que a maioria das coisas que passam na TV fazem a gente se distrair da própria vida, vendendo soluções prontas e fáceis pra substituir aquilo que não pode ser substituído. Chocolates e comédias românticas se alimentam da carência de afeto, carros e filmes de ação vampirizam a falta de auto-estima, peladas e cervejas jogam com a falta de prazer no dia-a-dia, e as notícias encontram ressonância na nossa crença de que toda essa invenção é de fato importante.

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Mas do que é realmente importante não se fala…

Não se fala de relacionamentos humanos sem descambar no drama dos programas de auto-ajuda ou no romantismo que vende até margarina. Não se fala de valores (integridade, respeito, amizade, etc) sem um quê de utopia, de heroísmo, como se fossem coisas longe do alcance do ser humano comum. Não se fala da magia da vida sem cair na ilusão de que ela seria melhor se ganhasse na loteria como o felizardo acertador de Birigui do Sul ou se fizesse uma lipo e fosse pra Ilha de Caras casar com um milionário… Isso sim é mágico…

Pouco se fala do que é de fato importante na vida – esse misterioso espaço de tempo entre o dia que viemos ao mundo e o dia em que formos embora. Aliás, não custa nada lembrar, apesar de a TV tentar nos fazer acreditar no contrário, esse dia pode acontecer a qualquer momento… Mesmo. A TV não gosta muito de falar da morte, a não ser da morte dos outros, é claro.scrubs06.jpg

Mas, voltando ao seriadinho americano… Por incrível que pareça, ele fala dessas coisas todas. De um jeito leve, divertido, mas ao mesmo tempo profundo, fala sobre relacionamentos humanos, valores, vida e morte. Ele fala sobre aprendizado, sobre as situações que nos fazem crescer e levar uma vida mais significativa, mais amorosa.scrubs051.jpg

A história do seriado se passa no hospital Sacred Heart, ou Sagrado Coração. E é desse ponto, do ponto do coração, que parece que ele é feito. Scrubs tem uma sensibilidade capaz de mostrar a vida com realidade e magia, com um senso do que é mesmo sagrado. Existe uma sabedoria por trás das piadas engraçadas, dos tombos pelos corredores e das viagens nonsense dos personagens. Que não é aquele mesmo tipo de “inteligência” voltada para ganhar audiência ou vender algo de que a gente não precisa.

Quase sempre termino de assistir querendo conversar com um amigo, com um sorriso no rosto ou pensativa. Às vezes até mesmo um pouco triste – e isso também faz parte da vida. Mas na maioria das vezes saio da sala valorizando mais as pequenas coisas do dia-a-dia e a relação com as pessoas ao meu redor. Em outras palavras, aquilo que é de fato importante.

Quando quiser companhia para assistir, pode me chamar!

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o sério

sério
tão sério quanto um inglês
tão sério quanto economês
tão sério quanto a viuvez

o sério
anda com passo o apertado
dorme um sono acordado
chora e reclama, o coitado

sério
como a queda do ministério
como o amor e o adultério
na vida de um gaudério

o sério
não passa de sonho vão
é simplesmente invenção
de quem vai na contra-mão

mas o que será sério enfim?
vida e morte passam assim
aqui e agora e não além
está a própria ilusão do fim
amém

lobo

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dia de mandioca

andei no meio da rua
comprei colar de contas
tirei dinheiro dum banco
e depositei no outro
fiz mandioca frita
e acabou-se o dia

a chuva

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dling bleng tlang clong
chove, chuva molhada
não pára para nada
molha a calha e a telha
faz bolha e poça d’água

dling tleng blang plung
chove, chuva encharcada
a terra cheira chuvarada
enche a rua de riacho
e enxurrada na calçada

dling tlung blong plang
chove, chuva e chora
dentro de mim e fora
lava e leva a tristeza
deixa leve, leve…

a leveza…

de lua

a lua me inspira e me pira
toda vez a cada mês.

às vezes me atira
à insensatez,
outras me afaga,
menina, a tez.

às vezes me anima
à embriaguez,
outras desatina
lágrimas em vez.

às vezes libertina,
outras viuvez.
às vezes morfina,
outras lucidez.
às vezes tubaína,
outras… xerez.

às vezes bailarina,
outras vendida
a um burguês.

às vezes jogatina,
outras do lado
do freguês.

às vezes ilumina,
outras se esconde
no céu chinês.

às vezes é sina,
outras só ensina
que é outro mês.

achados e perdidos

Onde está a alegria?
Deixaram pra aposentadoria.
Onde está a esperança?
Esqueceram na última dança.
Onde está a beleza?
Guardaram para a sobremesa.
Onde está a verdade?
Abandonaram no chão da cidade.
Onde está a coragem?
Perderam na última viagem.
Onde está o amor?
Trancaram no refrigerador.

Onde está a paz?
Encontre-a, se for capaz.

ser e estar

tudo isso é como estou,
nada disso é o que sou:
o ponto, o nada
no pensamento;
aqui e agora,
nesse momento.

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