Arquivo para Junho, 2008
rabisco
o outro é mistério
próximo-distante
escondido entre arestas
multifacetado
capturado num instante
o outro é império
rios atrás de montes
estradas sinuosas
falsos horizontes:
o outro é abismo,
precipício,
é fim e início
o outro é rabisco
do mapa do enigma
o outro é a linha
no labirinto;
o eterno sacrifício
o outro é espelho
movimento duplicado
alice e coelho
quem é quem detrás
do vidro espesso?
o outro sou eu
quando de mim esqueço
abraçando a dor
Descobri que eu vinha lidando com a dor de uma forma equivocada.
Sabe aquela sensação dolorida de aperto no peito, nó na garganta, angústia, mal-estar?
Até agora a única forma com a qual eu conseguia lidar com isso era lutando contra ou fugindo da dita cuja. Ou eu tentava resolver a dor na minha cabeça, pensando na causa dela, no porquê, no que eu podia fazer pra ela passar, ou eu tentava me distrair, buscar alguma coisa fora que me desse uma sensação momentânea de prazer, que me fizesse esquecer da dor.
Na primeira opção o resultado, invariavelmente, era sempre mais dor. Não adianta ficar se digladiando com um problema. Acho que foi Einstein que disse que é impossível resolver um problema com a mesma mente que o criou. Bem verdade. Por isso que a gente gosta de conversar com os outros quando tem algum problema, porque isso dá uma outra perspectiva.
Mas conversar nem sempre ajuda. Porque às vezes parece que isso vira um paliativo, alimenta uma atitude de vítima que de certa forma piora as coisas. E a gente fica meio condicionado a buscar a solução fora da gente. Fora que enche o saco de quem ouve!
A segunda opção, a fuga ou distração, é mais furada ainda… Porque a gente vai ter a sensação de que a dor passou, mas ela continua lá, quietinha, esperando um momento para nos pegar de jeito. Basta acionar os botõezinhos certos: uma situação, uma memória, uma palavra.
É que nem quando estamos com alguma ferida no corpo e desviamos nossa atenção para outra coisa, isso faz com que temporariamente esqueçamos da dor. A ferida, no entanto, continua lá. E ela precisa de cuidado.
Uma vez li um texto daquele monge zen budista Thich Nhat Hahn em que ele contava que muitos monges e monjas da comunidade dele passavam anos em retiro, vivendo num estado de paz, e quando saíam e voltavam para suas famílias, descobriam que os problemas dos quais eles haviam fugido estavam lá esperando por eles.
Isso tem a ver com a idéia de viver na zona de conforto, de fazer de tudo para não experimentar a dor. Ele diz que isso não funciona. Evitar a nossa dor nos impede de curá-la.
Ou seja, se a solução não é nem enfiar o dedo na ferida o tempo todo, nem colocar um bandeidinho numa queimadura de terceiro grau, deve haver um jeito melhor de curar. Nesse texto, o Thich Nhat Hahn dizia que a gente tem de abraçar a nossa dor, o nosso sofrimento.
Acontece que eu nunca entendi direito essa história de abraçar a dor. Achava que fazia isso quando pensava sobre ela, quando sentia a dor e me descabelava. Mas na verdade, eu estava me entregando para a dor, o que é diferente. Isso é sofrimento.
Ele acontece porque a gente não aceita a dor.
Então eu meditava com uma atitude de querer me livrar de algo que eu não aceitava. Ok, a meditação acalma, traz um bem-estar, relativiza as coisas. Mas meditação não é só um analgésico. O potencial dela é muito maior do que isso.
Não sou uma meditadora assídua. Só me empenho mesmo nas práticas quando o bicho pega. Mas mesmo assim dá pra perceber os benefícios. E a ficha que caiu mais recentemente foi essa. De que é possível usar a meditação para dissolver, para transformar a dor, e não para fugir dela.
Sei lá, cada um tem um método, uma prática. Mas o ponto principal do que eu percebi recentemente é que é essencial aceitar a dor, o que significa sentí-la sem nenhum julgamento, sem querer que ela vá embora, simplesmente constantando que ela está ali. O processo todo, bem simples, foi assim:
1. silenciar (ou seja, parar de ficar pensando sobre a dor, a causa, a solução…)
2. olhar para a dor (senti-la sem julgamento, aceitá-la)
3. respirar sobre ela
Esse respirar sobre a dor é tão simples quanto está escrito. É só sentir a dor e respirar com consciência. Uma das visualizações mais simples que aprendi na hatha yoga é imaginar que se inspira luz dourada e se expira fumaça preta. Fiz isso um pouquinho. Mas acho que qualquer coisa parecida vale.
O importante é acolher a dor mesmo. Porque assim ela é processada e liberada.
Aceitando, ela fica menor. Aceitando, é possível entrar em contato com aquela parte de nós que não é dor, e a gente deixa de se identificar com ela.
E quando a gente não se identifica mais com a dor, é possível sentir o nosso ser acolhendo aquela sensação e a transformando, é possível sentir o cuidado amoroso que está na nossa essência.
Acho que isso deve ser abraçar a dor… Pelo menos, foi o que eu senti.
***
Agora, se você resolver tentar isso em casa, melhor procurar uma orientação qualificada, com a galera que manja disso pra valer… Vou ficar devendo aqui o texto exato do Thich Nhat Hahn que falava desse processo todo. Mas deixo o link pro site da Sanga Virtual dele, que tem muitos textos de ensinamentos transcritos que dizem coisas práticas e bem parecidas. Esse pessoal faz um trabalho de primeira publicando os textos na Internet! É uma fonte de inspiração constante. O que eu mais gosto é o jeito simples com que ele explica as coisas.
lembrete pra mim mesma
lembrar sempre do primeiro compromisso: ser impecável com a palavra.
tatuar no braço? escrever nas paredes? colar post-its? amarrar fiozinho no dedo?
lembrar, lembrar, lembrar!
a palavra é um encantamento.
nunca usar a palavra para se destruir.
(quando usamos a palavra de forma errada com o outro, também estamos destruindo a nós mesmos. porque causa um sentimento ruim da pessoa em relação a nós.)
lembrar, lembrar, lembrar!!!
***
“Os Quatro Compromissos”, Don Miguel Ruiz. Editora Best Seller.

Baseado nas tradições dos antigos toltecas, povo que habitava a região do atual México, Don Miguel Ruiz acena com uma nova vida, repleta de energia, genuína felicidade e amor. Para alcançá-la, basta estabelecer e honrar alguns compromissos básicos – Seja impecável com sua palavra. As palavras têm imenso poder e não devem ser usadas levianamente. Diga apenas aquilo em que acredita, usando corretamente sua energia; Não leve nada para o lado pessoal. Não absorva insultos e não se deixe levar por adulações. Aprenda a se tornar imune às opiniões alheias. Não tire conclusões. Atenha-se apenas à realidade imediata e concreta. Sempre dê o melhor de si. Em qualquer circunstância, mesmo nas situações mais insignificantes, faça o melhor. Don Miguel Ruiz ensina aqui a incorporar essas diretrizes ao dia-a-dia, afastando o inferno da depressão, da insegurança e da dependência e conquistando a única e verdadeira liberdade – a que vem da alma, aquela que cada indivíduo concede a si mesmo.
a vida é circo
Tem dias em que a gente doma a fera. Outros em que viramos palhaços ou andamos na corda-bamba. O dia-a-dia é cheio dos malabarismos, e às vezes o trapézio impulsiona num vôo mais arriscado. Confesso que tenho meus dias de mulher barbada, sai de baixo!
Mas esses tempos tenho me sentido muito mais equilibrista.
cura na tela
Assisti dois filmes com o Robert Redford nesses últimos tempos que me tocaram bastante e me fizeram derramar umas lágrimas bem justas, daquelas que a gente chora com gosto.
O último foi “O Encantador de Cavalos” (The Horse Whisperer), de 1998, dirigido pelo próprio Redford. Um filme sobre a recuperação de uma menina e seu cavalo traumatizados depois de um terrível acidente. Redford interpreta um vaqueiro rústico, silencioso, mas que preza pela simplicidade das coisas e tem o dom de “ouvir a alma” dos cavalos, e não só dos cavalos…
O outro foi “Um Lugar para Recomeçar” (An Unfinished Life), de 2005, dirigido por Lasse Halström, o mesmo que fez “Chocolate” e “Regras da Vida”. Esse não tem cavalos, mas tem um urso. E a atuação sensível do Morgan Freeman. Também é bem forte. É uma história sobre rancor e perdão. Sobre o aspecto selvagem da vida, que nos fere apenas porque não aceitamos que certas coisas fazem parte da natureza.
Os dois filmes têm muito em comum, inclusive alguns personagens-arquétipos semelhantes e até uma cena que parece citação. Ambos falam das forças da natureza, dentro e fora do homem. Falam de como a vida fere e cura.
Altamente recomendável!
P.S.: No “Encantador de Cavalos”, tem uma cena que pra mim virou a quintessência da aceitação. Lá pelas tantas perguntam pro personagem do Redford: “Por que tudo isso foi acontecer?”. Ele responde: “Não sei, não me faço esse tipo de pergunta”.
follow your bliss
Esse Joseph Campbell era mesmo um homem sabido. No documentário “O Poder do Mito” ele falou uma coisa bem das boas… “Follow your bliss”, ou seja “siga a sua alegria”, aquilo que faz com que os seus olhos brilhem. Aí ele diz, com humildade: “tem funcionado”.
E é tão prazeroso ver como o rosto dele se ilumina quando conta as histórias, que só isso vale tanto quanto ouvir o que ele fala.
***
Lembrete diário: o que faz os meus olhos brilharem?
doces bárbaros
A melhor descoberta que fiz esses últimos tempos foi o CD duplo dos Doces Bárbaros, de 1976, um ano mais novo que eu. Uma “ripice” só, das mais deliciosas, com Gal, Caê, Bethânia e Gil, cabeludos, maconheiros, cantando sobre o “espírito de tudo”, peixes brilhantes, Xangô e Iansã, pássaros que voam e que têm medo de voar. Bem alto-astral!
Baixa aqui que é bom!
As faixas que eu mais gosto:
Fé Cega, Faca Amolada
O Seu Amor
Gênesis
Pé Quente, Cabeça Fria
Peixe
Um Índio
São João, Xangô Menino
Nós, Por Exemplo
Os mais doces bárbaros
confesso que blogo
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Dei de cara com essa tira no blog do Guilhes, logo depois de ter deixado um comentário falando porque é que eu estou fazendo o meu blog. E disse assim: “Fico besta de ver como vc consegue se soltar na escrita, falar o que pensa, abrir tanta coisa, sem se preocupar muito com o que os outros vão pensar. É bem o remédio que eu preciso! E foi por isso que comecei a fazer o blog, por uma necessidade de expressar o que tá dentro, anjo ou demônio.”
Segundo a tirinha, isso tudo não passa de narcisismo.
Será que os blogs são isso mesmo, apenas e tão somente um terreno fértil pra exercitar nossa auto-importância?
Ai dos gatinhos…
Mas será que não é exatamente esse mundo confessional, interiorizado, yin, que está faltando nessa nossa sociedade pragmática, mecânica e plastificada de hoje, em que o verbo sentir quase que não se conjuga? Se os nossos blogs confessionais se proliferam como gatos, porque para cada um que morre nascem outros sete, deve haver uma boa razão pra isso.
Narcisismo? Talvez um pouco. Quem vai atirar a primeira pedra?
Mas o que eu mesma sinto, confesso, é muito mais uma necessidade de auto expressão.
anotações
Sentir o corpo é transcender o corpo.
A matéria não prende, ela catapulta para o que está além dela.
Explorar a sintonia fina da percepção dos sentidos faz dissolver os limites do corpo. As fronteiras da pele perdem sua concretude. Sinto os limites se expandindo, sinto que não há separação entre a vida “dentro” e a vida “fora”. Tudo é Vida. Tudo é energia.
A consciência se desloca e expande. Outros sentidos são ativados.
O movimento dos dedos no teclado é pura energia que deixa marcas de uma materialidade no rearranjo dos átomos na tela do computador para formar desenhos de luz e sombra que produzem significado.
A energia se move e antinge a retina de alguém que lê. Esa energia se mescla com a própria energia da pessoa que está lendo e se transforma em outra energia, que por sua vez move átomos e partículas inimagináveis em todas as direções.
