Descobri que eu vinha lidando com a dor de uma forma equivocada.
Sabe aquela sensação dolorida de aperto no peito, nó na garganta, angústia, mal-estar?
Até agora a única forma com a qual eu conseguia lidar com isso era lutando contra ou fugindo da dita cuja. Ou eu tentava resolver a dor na minha cabeça, pensando na causa dela, no porquê, no que eu podia fazer pra ela passar, ou eu tentava me distrair, buscar alguma coisa fora que me desse uma sensação momentânea de prazer, que me fizesse esquecer da dor.
Na primeira opção o resultado, invariavelmente, era sempre mais dor. Não adianta ficar se digladiando com um problema. Acho que foi Einstein que disse que é impossível resolver um problema com a mesma mente que o criou. Bem verdade. Por isso que a gente gosta de conversar com os outros quando tem algum problema, porque isso dá uma outra perspectiva.
Mas conversar nem sempre ajuda. Porque às vezes parece que isso vira um paliativo, alimenta uma atitude de vítima que de certa forma piora as coisas. E a gente fica meio condicionado a buscar a solução fora da gente. Fora que enche o saco de quem ouve!
A segunda opção, a fuga ou distração, é mais furada ainda… Porque a gente vai ter a sensação de que a dor passou, mas ela continua lá, quietinha, esperando um momento para nos pegar de jeito. Basta acionar os botõezinhos certos: uma situação, uma memória, uma palavra.
É que nem quando estamos com alguma ferida no corpo e desviamos nossa atenção para outra coisa, isso faz com que temporariamente esqueçamos da dor. A ferida, no entanto, continua lá. E ela precisa de cuidado.
Uma vez li um texto daquele monge zen budista Thich Nhat Hahn em que ele contava que muitos monges e monjas da comunidade dele passavam anos em retiro, vivendo num estado de paz, e quando saíam e voltavam para suas famílias, descobriam que os problemas dos quais eles haviam fugido estavam lá esperando por eles.
Isso tem a ver com a idéia de viver na zona de conforto, de fazer de tudo para não experimentar a dor. Ele diz que isso não funciona. Evitar a nossa dor nos impede de curá-la.
Ou seja, se a solução não é nem enfiar o dedo na ferida o tempo todo, nem colocar um bandeidinho numa queimadura de terceiro grau, deve haver um jeito melhor de curar. Nesse texto, o Thich Nhat Hahn dizia que a gente tem de abraçar a nossa dor, o nosso sofrimento.
Acontece que eu nunca entendi direito essa história de abraçar a dor. Achava que fazia isso quando pensava sobre ela, quando sentia a dor e me descabelava. Mas na verdade, eu estava me entregando para a dor, o que é diferente. Isso é sofrimento.
Ele acontece porque a gente não aceita a dor.
Então eu meditava com uma atitude de querer me livrar de algo que eu não aceitava. Ok, a meditação acalma, traz um bem-estar, relativiza as coisas. Mas meditação não é só um analgésico. O potencial dela é muito maior do que isso.
Não sou uma meditadora assídua. Só me empenho mesmo nas práticas quando o bicho pega. Mas mesmo assim dá pra perceber os benefícios. E a ficha que caiu mais recentemente foi essa. De que é possível usar a meditação para dissolver, para transformar a dor, e não para fugir dela.
Sei lá, cada um tem um método, uma prática. Mas o ponto principal do que eu percebi recentemente é que é essencial aceitar a dor, o que significa sentí-la sem nenhum julgamento, sem querer que ela vá embora, simplesmente constantando que ela está ali. O processo todo, bem simples, foi assim:
1. silenciar (ou seja, parar de ficar pensando sobre a dor, a causa, a solução…)
2. olhar para a dor (senti-la sem julgamento, aceitá-la)
3. respirar sobre ela
Esse respirar sobre a dor é tão simples quanto está escrito. É só sentir a dor e respirar com consciência. Uma das visualizações mais simples que aprendi na hatha yoga é imaginar que se inspira luz dourada e se expira fumaça preta. Fiz isso um pouquinho. Mas acho que qualquer coisa parecida vale.
O importante é acolher a dor mesmo. Porque assim ela é processada e liberada.
Aceitando, ela fica menor. Aceitando, é possível entrar em contato com aquela parte de nós que não é dor, e a gente deixa de se identificar com ela.
E quando a gente não se identifica mais com a dor, é possível sentir o nosso ser acolhendo aquela sensação e a transformando, é possível sentir o cuidado amoroso que está na nossa essência.
Acho que isso deve ser abraçar a dor… Pelo menos, foi o que eu senti.
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Agora, se você resolver tentar isso em casa, melhor procurar uma orientação qualificada, com a galera que manja disso pra valer… Vou ficar devendo aqui o texto exato do Thich Nhat Hahn que falava desse processo todo. Mas deixo o link pro site da Sanga Virtual dele, que tem muitos textos de ensinamentos transcritos que dizem coisas práticas e bem parecidas. Esse pessoal faz um trabalho de primeira publicando os textos na Internet! É uma fonte de inspiração constante. O que eu mais gosto é o jeito simples com que ele explica as coisas.


