Arquivo para Julho, 2008
ave, vida
Às vezes me pego vendo a vida como uma força quase indestrutível, que supera todas as adversidades e consegue vicejar etre rachaduras de asfalto, tubos hospitalares, guerras civis e outras condições difíceis. Mas em outros momentos ela parece muito mais frágil, como uma linhazinha fina amarrada a um balão suspenso no ar, que pode ser rompida por qualquer vento ou galho de árvore.
Hoje um passarinho morreu na minha mão. Com a asa quebrada, a força que havia nele ainda fez algumas tentativas de vôo, mas ele não se sustentava mais nem no ar e nem na terra. Parece que no momento em que percebeu que a vida era inviável, decidiu ir embora… E assim foi. Leve, desprendido, como só os pássaros sabem ser. Foi embora como o vento.
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vida se esvaindo
tal qual uma ave entre os dedos
pro céu vai-se indo
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gracias, pequeno…
paradoxo
É conseguir ficar mais perto da natureza porque agora tenho Internet via celular. A tecnologia a serviço dos bichos do mato. Posso trabalhar onde quiser e a cobertura da Vivo permitir. Passei os últimos dez dias em Analândia, tomando um solzinho na grama entre um texto e outro…
texto bom
O Pedrim (Pedro Biondi) é um amigão que tem um jeito todo dele de mexer com as palavras. Escreve que dá gosto. Insisti que um post que ele escreveu intitulado “Biocombustível caseiro” era pura poesia. Olha aqui pra ver se você não dá razão pra mim! Recomendo muitíssimo o livro do moço! E o blog. Vai lá!
pensamentos
Há algum tempo atrás freqüentei algumas palestras e cursos da Organização Brahma Kumaris, que divulga a técnica da raja yoga no Brasil. É uma técnica de meditação diferente, em que a gente cria pensamentos, em vez de tentar fazer com que eles cessem. Concentrando no terceiro olho, criamos pensamentos baseados na nossa verdadeira essência, na idéia de que não somos esse corpo físico mas uma alma imortal, um ponto de luz localizado no centro da testa que tem qualidades como paz, amor, verdade, pureza, equilíbrio…
No começo eu duvidava muito da eficácia disso, já que pra cada pensamento que eu criava vinham outros dez dizendo que aquilo tudo era balela. Mas praticando vez ou outra deu pra perceber que é possível criar um fluxo de pensamentos positivos que trazem bem-estar porque estão baseados nessas energias inatas do nosso ser. É super simples.
As nossas emoções são fruto dos nossos pensamentos em relação às situações. Posso mudar uma emoção ao mudar o pensamento. E é incrível a velocidade com a qual o corpo reage à essa mudança de atitude mental. Mas pra isso é preciso um pouco de concentração, o suficiente para criar um fluxo de pensamentos intencionais.
Acho que a coisa mais legal que descobri lá é que somos capazes de controlar o fluxo dos nossos pensamentos, em vez de deixar a mente à solta todo o tempo.
Quando a mente fica solta, você sabe, vira a própria oficina do demônio…
Talvez tenha sido nesse ponto que a técnica mais me ajudou. Quando percebo que minha mente está entrando num padrão de pensamento destrutivo e circular, posso dar um “alto lá!” e me lembrar que é possível pensar diferente.
Basta esse pensamento para começar a criar um fluxo de pensamentos outros.
“Êpa! Não preciso pensar assim!”, funciona como um freio de mão, que interrompe o fluxo destrutivo. E daí a responsabilidade é nossa de dirigir os pensamentos para a direção que quisermos.
No fundo é fácil. O que pode dificultar as coisas são os pensamentos emocionalizados quando estamos num ímpeto de raiva, num acesso de tristeza, etc… Porque esses já estão reverberando no corpo e se retro-alimentando pela resposta corporal ao próprio fluxo de pensamentos.
Por isso que a gente pára, senta e respira. Pra dissipar a reação emocional ao pensamento errado. Não é pra fazer pose, não. Com a coluna ereta, a energia flui melhor pela espinha e pelos centros energéticos.
Mas dá pra controlar os nossos pensamentos em qualquer posição, viu?
É só ficar atento para perceber quando vem algum pensamento meio torto, capenga, daqueles que não servem pra nada mesmo, só pra destruir nós mesmos ou os outros. No momento em que percebemos, significa que estamos conscientes.
E com consciência, é possível escolher o pensamento mais benéfico para nós mesmos e para os outros. E assim parar de poluir a atmosfera com pensamentos que não merecem ser pensados, quanto menos ditos.
Pura ecologia…
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Uma coisa que ajuda a mudar o fluxo é pensar: “Eu sou capaz de escolher cada um dos meus pensamentos”.
Pra saber mais sobre a Brahma Kumaris, clique aqui.
nome
não tô me acertando com um nome pra esse blog, acho que porque ele tá meio sem tema, sem lenço nem documento.
tudo muda…
acabou que botei a palavra lá e gostei!
muda.
muda não fala, escreve.
muda cresce.
e muda muda.
sonhos
Que vontade de ler de novo o “Cem Dias Entre Céu e Mar”, do Amyr Klink. Taí alguém que sonhou em atravessar o Atlântico a remo, foi lá e fez. O livro é muito bom, com uma narrativa dinâmica e inspiradora. A gente termina a leitura com uma fé renovada no potencial humano. Ele podia ter ficado em casa, seguindo sua vidinha, achando que aquilo era impossível. Ele podia ter dito pra si mesmo: “ah, é só um sonho…” e continuar vivendo, ou sobrevivendo, com um sonho engavetado… Mas decidiu acreditar e ir atrás daquilo que ele mais gostava de fazer, do que ele sonhava em fazer. Quanta gente com sonhos empoeiradinhos disse pra ele que aquilo era uma loucura?
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Ando me perguntando para que servem os sonhos, se não para cultivá-los e segui-los. Se não for pra transformar nossos sonhos em nossos guias, pra que eles servem então? Quantos sonhos engavetados existem para cada sonho realizado?
Sei não… Mas acho que tá na hora de tirar a poeira dos meus.
assombro
Às vezes me assombro com essa coisa de ser humana. Sabe? Dois olhos, um nariz e uma boca no meio da cara… Estruturas estranhas que recebem o nome de braços e pernas. Frio, calor, fome, sede, roupas, carro, fumaça, dinheiro, computador, sangue, choro, vômito, sorriso, abraço, olhar, sistemas de governo, escolas, disciplinas, prêmios, cinema, televisão, moda, anorexia, animais em extinção, desmatamento, água polúida, protocolo de kyoto, reuniões do g8, sustentabilidade, nova era, comunidades, gurus, psicologia, terapia, palavras, nomes, conceitos.
Mas sobretudo me espanto com olhos, nariz e boca.
Com dedos nas mãos e nos pés.
Mas aí encontro uma pessoa, e mais outra… E ninguém parece se perguntar.
Então me esqueço disso tudo por algum tempo.
Até me assombrar de novo.
desabafo
Já nadei com golfinho, mergulhei com tartaruga, vi baleia com filhote do lado do barco. Já vi jaguatirica e esquilinho no mato. Macacos e morcegos gigantes vivendo perto de onde eu morava. Lagartões de metro e meio. Já vi pingüim e foca na praia. Já vi cobra coral, veado campeiro e tucano no mato que sobrou aqui em Rio Claro. Vi gambá no campus da Unesp e em Analândia. Já vi polvo, lula, serpente marinha, tubarão, barracuda e peixe-espada. Nada disso em aquário. Já mergulhei com arraia jamanta e tubarão baleia!
Tá punk esse monte de asfalto, carro e cana de açúcar!
Vai ver as pessoas não sentem falta daquilo que não conhecem…
beija-flor
Quando meu irmão e eu éramos crianças e meus pais tinham uma casa em Monte Verde, um dos nossos passatempos favoritos nas férias no campo era brincar de poleiro de beija-flor. Isso mesmo! Hoje sei que não é muito legal para essas aves aquela tal agüinha com açúcar que a gente colocava na garrafinha florida usada pra atrair os bichinhos. Mas na época, não fazia a mínima idéia.
Gostava mesmo de ficar olhando as cores, os bicos, as penas de todas as variedades de beija-flor que viviam por lá. E dávamos nomes pra eles… o Tonico, o Marronzinho, a Marronzinha, o Verdinho, o Mascarado, o Pica-Pau, o Bico Vermelho…
Lá pro comecinho da manhã e no fim da tarde eles vinham às dezenas. Era uma algazarra de beija-flores disputando as seis florzinhas de água com açúcar que tínhamos no jardim de casa. E era nessas horas que a gente mais curtia brincar de poleiro, o que significava, basicamente, ficar com os dois indicadores sob as florzinhas da garrafa, esperando que os beija-flores pousassem na nossa mão para beber.
A princípio eles ficavam meio desconfiados, mas depois não se importavam muito. O segredo era ficar imóvel mesmo, quase que sem piscar. No frenesi da última refeição do dia (ou talvez do vício pelo açúçar?), eles olhavam pras nossas caras de estátua, onde só os olhos se moviam, e não hesitavam.
Pousavam nos nossos dedos com aquelas garrinhas leves que até faziam cócegas. Voavam em torno de nós, examinavam bem os nossos rostos, e voltavam para as garrafinhas, na maior confiança. Ficávamos horas ali parados, conversando como ventríloquos para não espantar os bichinhos. Às vezes fazia um frio danado e a gente continuava lá fora, no meio da neblina, de gorro, cachecol e dedinhos congelando.
Hoje, vez em quando, eu sonho que um beija-flor pousa no meu dedo.
