Arquivo para Setembro, 2008

sessão coruja

Tá, eu tenho uma coisa com coruja que não sei bem de onde vem. Como aqui em Rio Claro tem muita, não sei se sou eu ou se são elas… Mas fato é que quando construí meu tambor, o animal que me apareceu na jornada xamânica foi uma coruja. Desde então, fui criando um vínculo afetivo bem forte com esses pássaros e passei a vê-los com muito mais freqüência pela rua, e até da varanda do meu quarto. E o curioso, ou simplesmente sincrônico, é que as corujas aparecem nuns momentos bem decisivos da minha vida, quando eu chego à compreensão de alguma coisa importante que muda o rumo do meu caminho. Sinto como se elas me trouxessem alguma espécie de confirmação. Uuuu-uuuu.

Tudo isso só pra dizer que hoje, numa ida corriqueira ao bureau de cópias para imprimir uns arquivos, dou de cara com uma coruja no balcão. Impressa numa foto, é claro… Mas ali estava ela, de olhões amarelos, sozinha no balcão branco imenso. Fiquei olhando pra carinha dela, enquanto esperava a impressão da história que eu ia levar pro curso de contadores e do roteiro de perguntas pro vídeo que vamos gravar no domingo. Duas coisas que de certa forma estão sendo importantes para redescobrir em mim a vontade de contar histórias.

Fiquei feliz mesmo de ver a corujinha ali, cúmplice daquele momento em que os sonhos começam a se transformar em realidade. Dei-me por satisfeita e fui para o encontro.

Quase quatro horas e muitas histórias depois, parei pra comprar comida no China in Box (que apelação! A cozinha aqui de casa está reformando, não dá nem pra ferver água…) e enquanto esperava, passei os olhos pelas revistas disponíveis pra matar o tempo. Uma Nova, que meu senso crítico nunca me permitiu comprar, mas que sempre folheio escondida de mim mesma quando vou ao cabeleireiro. E uma outra, sobre responsabilidade social, nem um pouco atrativa.

Sei lá por que raios peguei essa última. Talvez por ver uma revista que eu não conhecia, num lugar improvável. Mas na verdade, acho que o motivo foi outro… Porque bastou abrir e virar umas três páginas pra dar de cara com outra coruja!

Não contente em ter aparecido uma vez, e conhecendo bem minha veia de São Tomé, ela resolveu saltar da página da revista ali mesmo num China in Box da vida, numa sexta-feira besta de fast food. Ou talvez eu não tenha entendido bem a mensagem que ela quis me dar da primeira vez…

E agora fico eu aqui, madrugando e especulando o que as sincronicidades de hoje querem me dizer. Será que a coruja veio trazer uma confirmação para as últimas decisões que tomei – de me dedicar ao vídeo, fazer o curso de contadores de história, e por conseqüência ficar aqui em Rio Claro? Será que estou conseguindo enxergar melhor na escuridão das coisas? Ou, pelo contrário, estou me iludindo com alguma situação? Ou talvez, simplesmente, precise acordar um pouco mais cedo e parar de trocar o dia pela noite?

Mmm… Sei lá… O jeito é pegar a sessão coruja na TV enquanto o sono não vem… Ou tocar um tamborzinho…

***


Segue o texto da Jamie Sams sobre a coruja, publicada no livro “Cartas Xamânicas” (Editora Rocco), um oráculo que eu gosto muito, apesar dos puxões de orelha que vive me dando. (A carta aí de cima é de outro baralho, que achei na internet.)

Coruja – DECEPÇÃO
Magia
Presságios
Espaço e tempo.
A verdade emergirá
Da luta silenciosa
Dissipando a ilusão?
Pássaro da Cura Sagrada.

A energia da Coruja é simbolicamente associada a clarividência, projeção astral e magia, tanto em sua vertente branca quanto na negra. Na tradição indígena norte-americana, a Coruja é chamada de Águia da Noite por diversas tribos. Segundo a tradição, a Coruja mora no Leste – o lugar da iluminação. Desde os tempos imemoriais a humanidade tem temido a noite e a escuridão, aguardando ansiosamente pelo advento das primeiras luzes da madrugada. Inversamente, a noite é amiga da Coruja.

A Coruja caça suas presas à noite, porque ela pode enxergar perfeitamente no escuro, assim como é capaz de discernir e identificar com precisão qualquer som ouvido em suas expedições noturnas, o que faz dela uma grande caçadora. Alguns nativos temem a Coruja e chamam suas penas de penas da ilusão”. As plumas da Coruja são silenciosas, de modo que é impossível escutar o vôo da Coruja, mas a presa percebe imediatamente quando a Coruja a captura, porque tanto seu bico quando suas garras são afiadíssimos.

Às vezes a energia da Coruja é utilizada por bruxos e feiticeiras. Se você pertence ao totem da Coruja, é bem possível que seja atraído pelas ciências ocultas e finde por se dedicar às práticas de magia negra. Mas é muito importante que você não ceda ao ímpeto de praticar magia negra ou qualquer tipo de procedimento mágico destinado a tirar energia de qualquer pessoa ou ser. Se pertencer ao totem da Coruja, essas aves tenderão a se acercar de você, mesmo em plena luz ao dia, pois elas reconhecerão intuitivamente algum tipo de conexão com você.

Não é por acaso que a Coruja é tida como um símbolo de sabedoria em diversas culturas, pois ela pode ver o que os outros não conseguem: a essência da verdadeira sabedoria. Onde outros se iludem, a Coruja percebe com precisão o que realmente ali se encontra.

Atenas, a deusa grega da sabedoria, possuía uma Coruja de estimação que permanecia sempre em seu ombro e lhe revelava as verdades invisíveis. Essa Coruja tinha o poder de iluminar o lado obscuro da deusa, capacitando-a a perceber toda a verdade e não apenas aquela parcela da verdade que podia discernir sem seu auxílio.

Se você pertence ao totem da Coruja, ninguém será capaz de iludi-lo, por mais que tente disfarçar ou ocultar suas verdadeiras intenções de você. Tê-lo por perto pode até mesmo gerar um sentimento inquietante, já que você consegue discernir claramente quais são as verdadeiras intenções das pessoas. Se você não tem consciência de seus poderes, pode achá-los naturais, mas os outros não, pois se assustam ao perceber que você não pode ser enganado. Alguém do totem da Coruja sabe mais sobre a vida interior de outra pessoa do que sobre a sua própria.

Se você tirou a carta da Coruja, isto é sinal de que você está sendo convidado a empregar seus poderes de observação silenciosa para destrinchar alguma situação intrincada de vida. A Coruja o está ajudando a perceber a verdade em sua inteireza. Ela pode fazer isso por meio dos sonhos ou de práticas de meditação. Preste atenção a todo e qualquer presságio ou sinal, pois a verdade sempre acaba vertendo luz sobre as coisas.

história de dragão

Era uma vez e não era uma vez uma menina que tinha muita curiosidade pelas palavras. Não por palavras de qualquer tipo, mas por aquelas escritas no papel. Olhava intrigada para os adultos que passavam horas escondidos atrás dos jornais na poltrona da sala, absortos em decifrar aquele monte de sinaizinhos pretos no papel imenso. Não entendia os rabisquinhos que as pessoas grandes faziam a torto e a direito, os envelopes que o carteiro sabia onde entregar, as esquinas com placas coloridas que faziam os carros virar.

Ainda pequenina ficava imaginando que mistérios as palavras escritas escondiam, que coisas estranhas elas diziam. Descobriu que as letras se juntavam para formar os nomes das coisas, e que os nomes se juntavam para contar coisas sobre as coisas… E assim passava horas folheando as revistas da mãe e contando em voz alta suas histórias imaginadas.

Nem preciso dizer que ela adorava sopa de letrinhas. Tinha certeza de que limpando o prato, comendo todinhas, até mesmo as letras mais esquisitas, acordaria no dia seguinte sabendo todas as histórias que elas tinham pra contar. Bom, talvez nem todas, mas sempre se lembrava das mais bonitas.

E assim ela cresceu. Uma parte dela andava descalça, brincava na terra, jogava bola e pulava sela como as outras crianças. Mas outra parte, a que tinha medo do escuro, vagava por paisagens bem diferentes: pulava muros, voava em dragões coloridos, navegava em barrigas de baleias e em mares de sereias.

Quando finalmente aprendeu a ler e a escrever, soube que aquele outro mundo em que ela vivia existia também em outro lugar: nos livros de fantasia. Então sua imaginação voou mais alto, viveu aventuras em ilhas perdidas, casas assombradas e bosques de árvores falantes. Comeu casas inteiras de chocolate e fez amizade com gigantes.

Mais tarde percebeu que também podia organizar as letras para formar nomes e juntar os nomes para contar coisas e assim escrever suas próprias histórias. Quando fazia isso, aquele mundo em que ela vivia saía da memória, ficava mais real, e ela podia convidar outras pessoas para brincar nele também.

E então pôs-se a escrever.

Escreveu sobre castelos, princesas, tartarugas viajantes e poetas ambulantes… Escreveu sobre mamutes e elefantes. Sobre pessoas azuis e mundos sem igual. Escreveu sobre o bem e o mal.

E assim foi até o dia em que teve de responder à pergunta que fazem a todas as crianças mais ou menos grandinhas:

“O que você vai ser quando crescer?”

Como o que ela mais gostava era escrever, resolveu ir para uma escola em que as pessoas aprendiam a escrever histórias.

No começo, tudo ia bem… Conheceu outras crianças como ela, que também gostavam de juntar as letras para formar nomes e juntar os nomes para contar coisas sobre as coisas.

Mas aos poucos foi descobrindo que havia algo de errado com as histórias que as pessoas contavam naquela escola. Todas elas tinham de ser reais, sobre coisas que de fato existem nesse mundo que os olhos podem ver. Não podia escrever nada inventado, não podia dar nenhuma notícia do seu mundo imaginado, tudo tinha de ser baseado em fato.

Tudo bem… Talvez isso seja crescer, pensou. E se rendeu a aprender como fazer pra contar sobre as coisas que já existem. Às vezes dava uma ou outra escorregadela, a imaginação escorregava pela manga e alcançava os dedos no teclado, inventando uma coisinha ou outra num texto pra lá de chato.

E assim passou por anos de treinamento, trancafiando sua imaginação como a um dragão enjaulado. O que ela não sabia é que como não colocava mais as suas histórias no papel, elas iam se enrolando dentro dela, num carretel. Não demorou para que a menina, já grande, passasse a viver muito mais na fantasia do que no mundo real sobre o qual ela escrevia todo dia. A parte dela que andava descalça e pulava sela já quase não existia.

E, não sei se vocês sabem: os monstros da nossa infância crescem junto com a gente. Como as histórias não eram mais contadas, ficaram todas emaranhadas. Agora, no mundo da sua imaginação, só sobrara o medo do escuro e um grande dragão. E quanto mais ela ignorava o dragão de quando era menina, mais ele botava fogo pela narina.

Ela já não distinguia o que era real e o que era fantasia. No meio da confusão, tudo era dor e frustração. Até que um dia, um sábio doutor, que tudo sabia, apresentou-lhe a solução.

Tudo o que ela tinha de fazer, até o fim dos dias, era escrever sobre o dragão.

O doutor falou que conhecia muita gente que só vivia de ilusão. Isso é complicado, ele disse, porque se as histórias não acontecem, o contador fica frustrado. Quando o dragão da fantasia é trancafiado, ele se volta contra o próprio criador. Mas quando a gente escreve, ele voa, e liberta a imaginação. E a pessoa pode viver uma realidade mais tranqüila.

E foi assim que ela encontrou a ponta do carretel emaranhado, voltando a escrever sobre seu mundo imaginado. Contou tudo o que sabia sobre o dragão inventado: como suas unhas eram negras, como suas asas eram brilhantes e suas escamas eram secas. Como ele gostava de voar alto no céu e quando era preso fazia um escarcéu.

Esse primeiro texto que ela escreveu sobre o dragão terminava assim:

“Um passarinho me disse que quando uma história é contada, ela deixa de viver dentro da gente. E a gente é que passa a viver dentro dela. É assim que os grandes dragões perdem a maldade e os sonhos se transformam em realidade.”

água doce

rio profundo de águas negras
(e doces) mistérios da criação

palavras, de pés molhados,
na margem pescam em vão

dele eu bebo; e nele me afogo
em mim só há fogo, ar e sal

a água onde vivo é mar
que do rio vem
e do rio é desigual

é lágrima e suor de amar
nas línguas traduzida:

onda, vaga arrebentação
do som primordial

só entre as palavras,
escondida,
a água doce saliva

ponto de intersecção

Cidade de São Paulo, 10 milhões de habitantes. Ponto de ônibus, bairro da Aclimação.

- Faz tempo que você está esperando? – ela perguntou, torcendo para que a resposta fosse positiva para que o próximo ônibus chegasse logo e ela não se atrasasse para abraçar a amiga  – e tentar matar em duas horas as saudades de meses.

- Uns vinte minutos, cheguei e o Terminal Princesa Isabel tinha acabado de passar, respondeu o homem.

- É, ele demora. – “Acho que vai dar tempo”, pensou aliviada e virou-se, olhando para o infinito de onde os ônibus vêm.

- Tomara… Tive que pegar três conduções para chegar aqui. Primeiro desci no metrô Liberdade, e me disseram que o banco que eu procurava ficava no metrô Brigadeiro. Voltei para o Brigadeiro e me disseram que ficava aqui na Aclimação. Demorou, mas achei. Finalmente consegui pagar minha dívida. – disse ele.

Ela não estranhou tanto a conversa. Está acostumada a ouvir estranhos contarem suas vidas em lugares improváveis, em resposta a uma simples pergunta. Não que ela se esforce para que isso aconteça. Mas talvez tenha escondida no rosto ou no olhar alguma avidez por histórias da qual ela mesma não se dá conta.

Às vezes se aborrece, quer ficar só com os seus pensamentos, sua fantasia. Outras se finge interessada. Mais raramente ouve com um misto de atenção e desconfiança. E só muito de vez em quanto interage. Mas o fato é que as pessoas falam, têm necessidade de lhe falar.

Talvez seja a própria vida lhe dizendo para não ensimesmar. “Preste atenção! Eu também tenho uma história!” – dizem os desconhecidos nos elevadores, rodoviárias, pontos de ônibus, de intersecção.

Enfim, deu ouvidos… O homem também não era do bairro, morava longe, empreendera uma odisséia para conseguir pagar uma dívida de seis mil reais para o banco. Dinheiro fagocitado  por juros depois de quatro meses desempregado, vivendo à base de cartão de crédito e cheques sem fundo. Realidade dura. A seca da cidade grande. Sabe-se lá com quanto esforço conseguira pagar.

Ela mesma não sabe o que é isso. Tem dívidas de outro tipo. Uma delas com a realidade.

- Não uso cheque nem cartão, falou. Para não correr o risco. – disse ela, rendendo-se à conversa.

- É, nunca mais faço isso! O gerente do banco falou para mim: mulher e dinheiro a gente não toma emprestado.

- Mas que bom, agora você está livre, né?

- É… Aprendi a lição. Dia 12 agora fiquei mais velho, nessa eu não caio mais…

De súbito ela se interessou; vislumbrou uma janela de fábula entreabrindo-se no real.

- Dia 12? Verdade? Não acredito! Eu também sou do dia 12!

- De setembro?, ele perguntou.

- É! Fazemos aniversário no mesmo dia! Quantos anos você tem?

- 34, disse o homem do ponto de ônibus.

- Eu fiz 33.

- Por pouco não é a mesma data, disse ele. – Olha, o ônibus!

Tinha ficado tão surpresa que não se dera conta do veículo que irrompera do vazio. Até então, em 33 anos de existência, só tinha conhecido outra pessoa que aniversariava no mesmo dia. Os dois subiram, ela passou pela catraca, pensando em continuar a conversa e satisfazer sua necessidade repentina de saber da vida inteira em mínimos detalhes do homem do ponto de ônibus.

Mas por algum motivo ele decidiu ficar na parte da frente. Ela não entendeu. Passou os olhos por alguns acentos vazios no fundo e escolheu o seu. Que pena…

Alguns pontos mais tarde, o homem do ponto de ônibus passou pela catraca, deu sinal para descer e acenou quase imperceptivelmente com a cabeça, num gesto furtivo e embaraçado.

Como um desconhecido que se sente observado.

Ou como quem esconde algo de alguém que o conhece bem.

Ponto de interrogação.

parece que a calma
é quando o dedão do pé
conversa com a alma

budismo resumidinho

os pesares são diretamente proporcionais aos quereres

tpm

tempo de puxar as madeixas
tempo de pára e me-deixa!

tempo de parir monstros
tempo de parar mundos

tempo de permitir a morte
tempo de procurar na meada
o fio que tece a sorte

nem tudo passarinho

o desespero pousa, demora
ameaça, faz que não passa

pausa, em descompasso

investigo a palavra, a fera:
falta de esperança e de espera