Arquivo para Dezembro, 2008
hermética
sabe hermes, aquele das asinhas no calcanhar?
poizé, menino, pendurou as chuteiras por aqui.
talvez seja hora de falar menos
e fazer andar as palavras
até mais…
pós em conserto de bóias
Socorro aos lingüistas… Estou sofrendo de uma crise semântica!!!
Esses dias eu estava cozinhando e ouvindo o telejornal quando o apresentador anunciou a matéria do bloco seguinte: “conserto de sapatos”. De longe, sem imagem nenhuma, fiquei curiosa imaginando como seria o tal concerto que usava sapatos como instrumentos musicais, estilo aquela galera do Stomp. Fiquei meio decepcionada quando o percebi que o conserto era com S e não com C.
Depois, folheando uma revista de pesquisa acadêmica, chego num título assim: “Pós no Norte e Nordeste”. Que estranho, pensei. Que tipo de pó será esse que cobre as duas regiões? Será por causa da seca, do desmatamento? Ou estão produzindo pós industriais? – Imaginei tudo, menos pós-graduação.
E ontem, conversando com meus pais, contava pra eles como estão as coisas aqui na casa nova, que tenho que fazer tudo sozinha e tal… Aí meu pai solta essa: “Se você quiser, pode vir pegar uma bóia aqui”. Bóia. Redonda, branca e vermelha, de isopor, com cordinha amarrada? Coisa de pai querendo salvar a filha afogada em trabalho? Não… Era bóia-comida mesmo…
O que está aconteceeeeendo comiiiiiiiiiiigo?
Será um efeito colateral de fazer muitas traduções?
é gata!
Dizem que a curiosidade matou o gato. Então é melhor matar a curiosidade dos amigos, antes que os gatos caiam duros… Guilhes, aí vai a foto. ;-)
E sabe do que mais? É uma gatinha! Poizé… Levei no veterinário hoje e ele veio com a revelação. Eu não tinha muita certeza, então ficava chamando a pobrezinha de Nenê.
A minha miopia não justifica o erro de julgamento, uma vez que é só pegar o bicho de perto pra ver.
O engraçado é que fiquei umas três semanas achando que era fêmea mesmo, porque ainda tinha o irmãozinho dela por perto pra comparar. O outro tinha bolinhas e ela não. Simples assim.
Mas depois que o irmãozinho morreu durante uma inadvertida soneca no motor do meu carro, fiquei sem parâmetro de comparação. E pra completar veio uma amiga minha aqui em casa e falou: “Elô, é macho!”. Como a Denise sempre teve gat@s e falou com tanta certeza, acabei me convencendo de que tinha dois projetos microscópicos de testículos prontos pra brotar na gatinha.
A partir de então, a pobrezinha ganhou o apelido unissex de Nenê por duas semanas e um apelo para doação intitulado “gatinhO procura lar”.
Será que é o caso de mandar uma errata?
***
Quanto à agressividade da Nina, a revelação de que o filhote é uma fêmea não muda nada… Há tempos atrás peguei um filhotinho macho na rua (esse eu tinha certeza) e o comportamento dela era o mesmo: só patadas, unhadas e bufadas.
O veterinário falou: “ela está com ciúmes”. Será?
mostrar as garras, eis a questão
Estou cuidando de um gatinho que foi abandonado aqui em casa antes de eu me mudar. Sabem como é difícil resistir aos encantos de um filhotinho… Sento no sofá para ver TV e lá vem o pequenininho se aninhar no colo, coisa mais meiga. Mas ele nem sempre é esse anjinho de bigodes. Gatinhos pequenos têm uma fase de ficar mordendo e arranhando tudo o que vêem pela frente, pra testar as garras, aprender a se defender, a caçar, etc. Um saco…
Nessas brincadeiras, acabo saindo com uns arranhões e marquinhas de dentes nas mãos e no braço. Mas o curioso é que, se o gatinho chega perto do meu rosto, ele tem o instinto de guardar as unhas e tocar a pele com toda delicadeza, pra não machucar mesmo. É engraçado, fico tentando imaginar o porquê disso. Será que ele sabe que unhada nas fuças dói? Será um tipo de compaixão felina? Ou uma espécie de carinho e gratidão pelos pires de leite e genocídio de pulgas?
Já a Nina, minha gata oficial que tem uns sete anos de idade, não é tão compassiva assim. Ela detestou a idéia do novo companheiro e não tem nenhum pudor em botar as garras pra fora: vive dando patadas no pequenininho (que é umas três vezes menor que ela), mostrando os dentes e bufando pela casa. Eu não sabia, mas gato bufa de raiva. E eu que achava que o contato resgataria o instinto maternal dela. Ledo engano.
No caso dela, não sei mesmo se esse comportamento é um instinto de preservação, de defesa do território própria dos felinos, ou se é puro ciúme de ver o bichinho no meu colo. Só sei que dó ela não tem, não. Compaixão zero.
E nessas eu passo horas tentando compreender porque um guarda as unhas e a outra bota elas de fora nas fuças alheias. Já cheguei até a pensar que a Nina ficou traumatizada porque nunca mais viu os filhotes dela e tem medo de se apegar a um gatinho pequeno pra não sofrer de novo. Sério!!!
Projeções antropocêntricas à parte, fico imaginando se os bichos têm essas complexidades psicológicas. E não deixo de pensar com um certo fascínio na possibilidade de um universo psíquico dos gatos que é inacessível para nós. O que eles sentem? Será que pensam? O que pensam? Por que guardam ou mostram as garras?
que venha o pior!
Faz tempo que não escrevo nada, mas vou deixar as explicações pra depois. Acabei de assistir ao Café Filosófico e de fato foi muita cafeína mental pra essa hora da madrugada.
Muito interessante. Fez questionar toda essa apologia de uma nova consciência capaz de “salvar o planeta” da “catástrofe ambiental”.
O filósofo Alexandre Mendonça explicou que isso não passa de uma outra forma do racionalismo orientado para o progresso, que sempre se volta para o desejo de um futuro melhor por não saber lidar com o presente e com a morte, que é parte da vida. O racionalismo parte de uma afetividade negativa em relação à vida, que condena a natureza humana como algo passível de ser corrigido pela razão.
Já o pensamento trágico (vem das tragédias gregas) parte de uma afetividade positiva, que vê e aceita a morte como parte da vida, e por isso abraça a vida tal como ela é.
A idéia é que não é possível uma mudança de consciência se não houver uma mudança de afetividade. Movido pela culpa e pelo ressentimento, o racionalismo sempre se engajará num projeto capaz de criar um futuro melhor e continuar negando a vida no presente.
E esses projetos baseados na negação da vida, que enaltecem um domínio ilusório do homem sobre o acaso e sobre a natureza, são obviamente incapazes de controlar a realidade.
Para cada invenção do progresso humano, há sempre uma catástrofe proporcional ao benefício que ela oferece. Quando o homem inventou a bicicleta, ele também inventou o tombo de bicicleta. Quando inventou o carro, o acidente de carro. O avião, o acidente de avião. E assim por diante, até a energia nuclear. Quanto mais próximo do céu ele tentou chegar, mais as catástrofes o levaram ao inferno.
Segundo ele, o desafio não está em tentar descobrir onde a racionalidade errou, mas simplesmente admitir que a própria racionalidade é falha. Que a vida é muito maior do que ela.
O homem não está verdadeiramente preocupado em “salvar o planeta”, mas sim em lutar contra a sua própria finitude, em salvar a si mesmo. A vida, com ou sem seres humanos, continua. Formas de vida se extinguem para dar origem a outras formas. A única coisa que se sabe é que nada é permanente.
Nessa linha de raciocínio, ele disse que a afetividade positiva do pensamento trágico deseja e espera “pelo pior”. O pior, nesse sentido, é o próprio acaso.
É como quando num momento de alegria, desejamos viver a vida toda de novo, exatamente da mesma forma, com todas as suas tragédias, porque, enfim, está é a vida.
A idéia da catástrofe, por outro lado, infunde mais culpa e ressentimento no homem, que deseja “consertar” sua natureza, almejando um projeto de futuro melhor, controlado por ele, por meio da racionalidade. Isso esvazia o ser humano de sua própria potência, porque nega sua natureza.
Por outro lado, desejar o “pior” parte de uma afetividade positiva que integra todos os aspectos do ser humano e o fortalece.
Os filósofos de plantão que me perdoem pela simplificação. Talvez eu tenha atropelado os conceitos, mas essa foi a forma como eu entendi. E, filosofês ou não, isso fez sentido pra mim.
Porque ficar me sentindo culpada por andar de carro ou por consumir lâmpadas econômicas tóxicas que não podem ser recicladas não faz muito bem pra minha saúde, não…
Se em vez dessa militância baseada na afetividade negativa, na crença de que nosso projeto deu errado e que precisamos nos esforçar para “salvar o planeta”, a gente esforçasse mais para ser feliz nesse momento, abraçando a vida tal como ela é – riso e dor e morte e acaso-, acho que o contentamento e a alegria decorrentes seriam muito mais benéficos para o ambiente ao nosso redor do que uma lâmpada fluorescente.
Até porque quando inventamos a lâmpada, também inventamos a queda da lâmpada.
E se o pior é a vida – com lâmpadas que quebram, brisas e tempestades, sol e chuva, nascimento e morte -, que venha o pior!
