alguns segundos de uma tarde de quinta-feira

Meio macambúzia, no quintal, como se contasse pingos, olho para a chuva miúda que cai quase ininterrupta há quatro dias quando um beija-flor de rabo branco corta o espaço em direção à flor vermelho-vivo do hibisco. O olhar se ilumina e acompanha o bater de asas e o bico que sorve o néctar demoradamente. Com graça ele deixa a flor e pousa sobre o fio do varal, tirando a língua para fora repetidas vezes, num delicado lamber de beiços. Na cara até então fechada, o canto dos lábios esboça um leve movimento ascendente. A ave limpa as asas, com gestos precisos de fechar e abrir, talvez sacudindo uma gota d’água da qual não soube se esquivar. Olha para o lado, hesita. Investiga meu olhar e o resto do mundo ao redor. Mas logo voa, com aquele tipo de delicadeza que não faz distinção entre movimento e repouso.  Inesperada, uma exclamação silenciosa dura o intervalo entre a sístole e a diástole: Ele vem em minha direção!

Mas, aaah… Nada disso… Apenas mata a curiosidade em relação aos prendedores de roupa coloridos e parte novamente em direção às flores de hibisco. Confunde-se com a folhagem, deixando o meu campo de visão. No rosto, o sorriso ainda pousa largo.

beijaflorrabobranco

(peguei essa foto – excepcional – na internet há algum tempo e peço perdão ao autor se não consigo encontrar mais o endereço do site para dar o devido crédito.)

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