Arquivo para Fevereiro, 2009

mitos familiares v

Tio Hubert comprou um celeiro e transformou em casa. Vendeu a casa e construiu um veleiro. Pegou o veleiro e viajou o mundo inteiro, mulher e filhos na garupa. Se tudo isso já era motivo para minha idolatria, imagine quando me contaram que ele fugiu com o circo na juventude! Dizem que se apaixonou pela moça da corda-bamba… É claro…

mitos familiares iv

Depois de almoçar um belo coq au vin, meu avô belga deitou-se para uma siesta e não levantou mais. Só que antes disso ele abriu as gaiolas e matou seus três canarinhos. Medo de voar sozinho, penso eu…

mitos familiares iii

Vó Cida, que meu pai chamava de Dona Apa, era são-paulina roxa. Quando viajava para o meio do mato não faltava o radinho de pilha, que sintonizava com devoção e estática em dia de jogo. Extática com qualquer escanteio.

mitos familiares ii

Tio Paulo só comia arroz, feijão, bife e batata-frita, todo santo dia – sete na semana, 365 no ano. Se não tivesse batata-frita, ele mesmo arregaçava as mangas e punha-se a descascar. As batatas e a mulher.

mitos familiares i

“Tio Nenê era vesgo porque diz-que quando era criança engoliu um prego”. É o que contam do pintor consagrado da família, impressionista, que morreu aos 101 anos. Impressionante.

a maçã (samsara)

Por que não se convencer, vez por todas, que felicidade não vem com camiseta de brinde, beijo ofegante ou anúncio em alto-falante? Ela não rima com toda essa roda-gigante. Já dei espiadela, de soslaio, e até sei seu endereço: é um conjugadinho modesto para além do parque das distrações. Mas lembrar o caminho, outros quinhentos… Com tantas luzes coloridas e velozes, música de realejo e a promessa de nuvens de algodão-doce, nada feito. Às vezes a consciência lampeja que voltar para casa é a única opção. Mas ignoro como quem negocia cinco minutos de despertador… É que logo ali brilha, vermelho-caramelada, uma maçã-do-amor.

uma leitura

Julguei te amar, no escuro, quando disseste meu nome. Mas não foi o teu que veio à ponta da língua (que lera com avidez as entrelinhas dos teus lábios), e sim outros, com os quais eu já preenchera a mesma lacuna do verbo amar.  Tempo passado. A ilusão tardou a conclusão difícil de soletrar. Amor, não era. E no entanto e ainda, a escuridão sem-nome se demora.

ou sereno, e todo o tempo

Ontem pensei que a gente se engana, mal-entende São Francisco: não foi de pobreza o voto que ele fez, mas de bem-aventurança. Foi compreensão de segundos, que nem bem alcanço explicar, mas que tem a ver com nada nos pertencer e tudo nos ser dado.

Coisa de deixar a gente numa beatitude que só…

Fiquei o dia todo tentando reavivar a experiência, mas só consegui uma saudade doída e uma sensação de iminência de alguma coisa – de coração sair pela boca, talvez? De chorar por me sentir tão mais longe depois de ter me sentido tão mais perto?

Faz questionar se existe outra razão de viver…

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Cântico das Criaturas
(São Francisco)

Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a benção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o Senhor Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.

E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo
Pela qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.

Bem aventurados os que sustentam a paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.

Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.

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Em italiano, é uma das coisas mais bonitas sobre a terra.

isto não é dadaísmo

se tudo deus dá
e tudo deus tira
a única saída (da mentira)
é render-se ao deus-dará

uma noite, num lugar-comum

Quando estivermos acampados sobre a rocha, de mãos dadas, cobertos de escuridão e estrelas, com voz trêmula vou lhe falar da beleza fugidia de tudo isto – mãos que se unem e estrelas que brilham. (Enquanto o vento carrega nossas palavras pelo vale iluminado, sobre uma constelação de lâmpadas acesas.) E vou olhar para as linhas que se desenham no canto dos seus olhos, por onde já escorreram sorrisos e lágrimas, com um misto de ternura e temor.

Tudo isto não há de ser nada, você dirá. Tudo isto não há de ser nada… diante da eternidade desse momento.

E respiraremos fundo verdade e ilusão.

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