Arquivo para experiência pessoal
elementar
descobri que só lá fora eu vivo, sem teto nem parede. viver é pele: sob o sol, contra o vento, debaixo de chuva, sobre a grama… o resto é morte lenta e civilizada.
canto
Acho que em breve esse blog vai deixar de se chamar “muda”. Escolhi o nome primeiro por causa da mudança necessária (já estava meio cansada de ser enluarada…). Segundo porque eu sempre fui assim meio muda em relação às coisas que eu sinto. Sempre fui mais de escrever do que de falar o que se passa dentro de mim, quase sempre concordando com os outros e sufocando minhas próprias opiniões na garganta.
Agora percebi que esse nome “muda” fazia mais sentido do que imaginava: ando em busca de um canto. Um canto para morar e um para cantar. Ou seja, um para me mudar e outro para deixar de ser muda.
E olha que bacana: ontem na aula de canto, o professor falou que o nosso timbre é como uma impressão digital, único. Exercitar a voz, encontrar o nosso timbre, é expressar a beleza da nossa singularidade.
Li uma matéria muito bacana sobre isso, aliás, escrita por uma colega de faculdade, a Débora, na revista Vida Simples. Dê uma olhadinha lá.
Um trechinho pra dar o gosto:
“Conhecer a voz? Sim. A voz, única e intransferível, é uma impressão digital. Ela desnuda traços de personalidade. O tom, a colocação e o volume podem ser mais reveladores que o conteúdo de um discurso. “Existe um rumo natural da voz, que acaba distorcido”, afirma a psiquiatra Ângela Miranda. Aguce os ouvidos e você perceberá nuanças nas vozes das pessoas à sua volta, que dizem respeito ao que elas sentem no momento em que falam. Alguns falam alto demais, outros têm uma conversa empolada. Uns quase sussurram, outros mal articulam as palavras. E é comum pessoas falarem em tons diferentes dependendo da situações. Quem nunca presenciou uma discussão em que um sujeito de voz grave, irritado, chega a falar quase em falsete? Observar cuidadosamente o modo de falar das pessoas desenvolve a capacidade de ouvir – princípio básico para quem deseja entrar no universo do canto.
O passo seguinte, ainda mais fascinante, é voltar o ouvido para a própria voz. Ela tem muito a lhe ensinar sobre você mesmo. Qual a cara da sua voz quando você está triste, nervoso ou surpreso? Descobrir o seu verdadeiro som, aquele encoberto por tantas angústias, traumas e sentimentos trancafiados, traz uma nova consciência sobre si e é uma poderosa ferramenta terapêutica. “A voz é sempre o resultado de sua relação consigo mesmo”, afirma a paraibana Fabíola Medeiros, terapeuta da voz. O objetivo desse processo não está na pureza do som. São precisamente as impurezas da voz de cada um que a tornam única. “A voz está impregnada da história de vida da pessoa. Um coral de vozes puras seria uma chatice”, diz o cantor lírico Paulo Mandarim.”
dimensão do sonho
Hoje minha mãe e eu sonhamos a mesma coisa. Ela sonhou que eu ia num lugar que parecia uma feira cheia de barraquinhas em que mulheres liam a sorte com búzios, tarô, etc. E eu sonhei que eu ia num lugar que era uma espécie de encontro de bruxas e mulheres xamãs e entrava numa fila para que uma xamã lesse a minha sorte.
oração
Quando eu era pequena me ensinaram o Pai-Nosso, mas como era longo demais e eu não tinha a mínima idéia do que significava -era quase como cantar o hino nacional na escola, coisa que ainda existia lá pelos idos dos anos 80 na EEPG Prof. Antonio de Campos Gonçalves-, optava sempre por um singelo e veloz “Jesus-menino-meu-irmãozinho-faça-que-eu-seja-bem-boazinha”. Que na minha pressa infantil acabava soando como “o rato roeu a roupa do rei de Roma”. Basicamente um trava-língua.
Óbvio que essa relação com Jesus menino não durou muito. Difícil imaginar que, adolescente, vestida de preto e ouvindo Black Sabbath, eu ainda me importasse em ser boazinha. Aliás, que coisa infeliz essa história de ser “boazinha”. Passei por uma fase de centro espírita na pré-adolescência, mas lá pelos 14 anos eu já tinha cortado relações com Deus, anjos, santos, espíritos de luz e o diabo a quatro. E de fato, durante muito tempo eu não rezei, não orei, não disse nenhuma precezinha, nem pulei pra São Longuinho. E olha que eu perdia de tudo!
Com uma pitada de niilismo fin-de-siecle universitário, estava fundado o ateísmo de carteirinha. Deus era para os fracos. Nem ousasse falar dele na minha frente que eu tinha engulhos e pulava no pescoço desavisado.
Durante anos eu encontrei algum conforto na ciência herdada das apostilas de cursinho aliada a um pouco de imaginação. Não era exatamente uma cosmogênese, mas valia. Ficou conhecida pelos meus amigos todos, coitados, como a “teoria dos elétrons da última camada”, que entre outras coisas explicava a possibilidade de captar as vibrações de pensamentos alheios por ressonância dos campos eletromagnéticos formados a partir das correntes elétricas geradas pelo quantum de energia liberado pelos elétrons da última camada dos átomos que reagiam na complicada química dos neurotransmissores do nosso cérebro. Deu pra entender?
Poizé… Tem gente que simplifica e chama esses mistérios todos de Deus.
Mas enfim… Minha solução religiosa também não me ajudava em nada na hora da oração. Difícil rezar num altar com um nome desses. Vai dizer o quê? Bem-aventuradas as ligações covalentes, livrai-nos da catálise, amém?
Na verdade, eu não me preocupava muito com isso. O mais perto que eu chegava de alguma espiritualidade ou autoconhecimento era assistir “2001- Uma Odisséia no Espaço” e visitar uma aluna de psicologia na clínica gratuita da USP uma vez por semana. Ah, teve também umas expansõezinhas de consciência fruto de uma certa inconsciência… Mas juro que não traguei! (Só para o caso de minha mãe estar lendo esse texto.)
O resto é a velha história… Maconha, cocaína, crack, prostituição…
Brincadeira… Mas como uma coisa leva a outra, logo estava lendo as peripécias do Thimothy Leary, que falava sobre o Livro Tibetano dos Mortos y otras cositas mas. Logo substituí os elétrons do meu altar pelo lisérgico “Submarino Amarelo”, com os Beatles em versão desenho animado lutando contra os malvados azuis pra devolver a música à cinzenta cidade de Pepperland. Se você não assistiu, recomendo! (Ainda essa semana estava ouvindo de novo “All You Need Is Love”… lá lá lá lá lá… come together, everbody!)
Viajei (dessa vez literalmente) três anos com um submarino amarelo debaixo do braço, na cabeceira da cama e no repeat do disquinho mental. Será que dá pra considerar isso uma rezinha?
Nessas alturas eu já tinha comprado um tarô zen do Osho, e daí pra cair no budismo foi um passo. Tá virando budista? – perguntaram. Eu? Não! Só acho interessante porque é muito lógico etc etc etc. Ainda não dava o braço a torcer. (Quem diria que mais tarde eu passaria meses cantando Hare Krishna e dançando na frente de um deus azul!)
Mas eu não rezava. Juro que não. Meu interesse era muito mais intelectual e também pela meditação. Eu dizia uns mantras que eu não tinha idéia do que significavam, alguns que eu sabia o significado e uma ou outra oração… Sim, orações, mas não acho que eu rezava, não. Eu repetia o que táva escrito lá no livrinho… O rato roeu a roupa do rei de Roma… Não tinha muita conexão envolvida nisso.
Tempo passa, tempo voa… Depois de uns quatro anos fuçando aqui e ali, umas tantas linhas espirituais e religiões diferentes, acho que finalmente estou começando a pescar essa coisa da oração.
Resumindo de um jeito bem simples, pra quem acredita ou não que haja qualquer coisa além do que percebem os nossos cinco sentidos, ando sentindo a coisa mais ou menos assim:
Que a gente é feito da mesma substância que forma todo esse mundão véio sem porteira. Átomos, elétrons, coisas menores ainda que a gente não estudou para o vestibular, e que nem os cientistas descobriram… Partículas minúsculas, impensáveis, que se sucedem indefinidamente da mesma maneira que a imensidão de galáxias além de galáxias. Estrelas que nascem e que morrem. Seres incontáveis, conhecidos e inimagináveis… Matéria… Luz… O infinito inconcebível.
Passado o susto e a impressão de que somos seres tão insignificantes no meio de um grande caos, dá pra começar a perceber os padrões que se repetem no macro e no micro, a geometria das folhas na mata, do átomo e dos planetas, a espiral do DNA, da galáxia e das conchas na praia, a simetria das frutas, o ritmo das ondas, o pulsar da seiva das plantas, do sangue nas veias, o olhar das pessoas e dos animais, o ir e vir do ar dentro de nós, a batida do nosso coração. E de repente a gente não enxerga mais o caos e sim uma ordem perfeita, da qual fazemos parte e que faz parte de nós, sem separação.
Deus, como isso é bom! ;-)
E daí única oração possível é o agradecimento.
Acho que foi isso que eu percebi… Que apesar dos pesares, literalmente, é possível levar a nossa consciência para um outro ponto. Um ponto onde é possível reconhecer a beleza de tudo ao redor, a dádiva de existir e poder partilhar desse mistério.
Foi então que eu entendi que a oração pode nos levar pra esse lugar. Que ela é como uma passagem de ônibus. E tudo o que a gente precisa dizer para o motorista é um simples obrigado pra começar a viagem.
A oração não precisa ser nenhum muro de lamentos, nenhum confessionário de culpas, nenhum deus-nos-acuda. Mesmo que a gente esteja num momento difícil, sem vontade de agradecer por nada, é possível usar a gratidão como palavra-chave pra elevar a consciência pra um lugar melhorzinho. Basta um “eu agradeço por…” para começar a encontrar os motivos pelos quais vale a pena estar vivo.
Depois de uns minutinhos agradecendo, nosso estado de espírito já é outro. E quanto mais a gente consegue entrar nessa vibração de gratidão, mais a gente tem motivo para agradecer.
Tá bom… Encontrei Jesus!
;-)
Feel allright now
Lord, I thank you!
(já diria Bob Marley)
***
Lembrei de algumas coisas enquanto escrevia o texto:
- do monólogo final do filme “Beleza Americana”:
“There’s so much beauty in the world. Sometimes I feel like I’m seeing it all at once, and it’s too much, my heart fills up like a ballon that’s about to burst… And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can’t feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life…”
- e de um trecho do livro “Cartas do Caminho Sagrado”, da Jamie Sams, sobre a abundância:
“Sempre que os Nativos Americanos necessitam obter um instrumento para realizar algo, ou precisam recorrer aos serviços de algum especialista, eles costumam agradecer ao Campo da Fartura, antes mesmo que a pessoa ou objeto se manifeste na prática. O Campo da Fartura sempre encontra um jeito de colocar o objeto desejado nas mãos daquele que realmente necessita dele. A chave para conseguir que todas as coisas necessárias se manifestem consiste em desenvolver um profundo sentimento de gratidão, aliado à total sinceridade e à ação correta em nossa vida física.”
coruja
Saí na varanda do escritório aqui em casa e, parada sobre a caixa d’água da casa do vizinho, estava essa coruja olhando na minha direção. Dei aquele gritinho de “olha, uma coruja!” e ela quase voou de susto, mas eu recuei e ela desistiu da idéia. Fiquei apertando meus olhos míopes durante um tempão, tentado observá-la melhor, enquanto ela continuava por ali, respondendo aos gritos de outra coruja mais ao longe. Trocamos uns “uuuu uuuu uuuu” e pedi educadamente pra que ela não saísse do lugar até que eu pegasse a máquina fotográfica.
Desci e subi duas vezes até encontrar a máquina e quando voltei ela ainda estava paradinha na caixa d’água do vizinho… Tirei uma foto. Na segunda já peguei ela armando o vôo. E não é que a danadinha veio parar mais perto de mim ainda? Talvez a uns dez metros de distância. Bem em frente ao telhado que dá pros fundos aqui de casa… Pena que já estava escurecendo e as únicas fotos que ficaram mais ou menos boas foram as com flash, que deixaram os olhos dela brilhando. Mas valeu…
Pra essa última, precisei usar o meu melhor corujês pra que ela olhasse para a câmera. Funcionou… ;-)
pensamentos
Há algum tempo atrás freqüentei algumas palestras e cursos da Organização Brahma Kumaris, que divulga a técnica da raja yoga no Brasil. É uma técnica de meditação diferente, em que a gente cria pensamentos, em vez de tentar fazer com que eles cessem. Concentrando no terceiro olho, criamos pensamentos baseados na nossa verdadeira essência, na idéia de que não somos esse corpo físico mas uma alma imortal, um ponto de luz localizado no centro da testa que tem qualidades como paz, amor, verdade, pureza, equilíbrio…
No começo eu duvidava muito da eficácia disso, já que pra cada pensamento que eu criava vinham outros dez dizendo que aquilo tudo era balela. Mas praticando vez ou outra deu pra perceber que é possível criar um fluxo de pensamentos positivos que trazem bem-estar porque estão baseados nessas energias inatas do nosso ser. É super simples.
As nossas emoções são fruto dos nossos pensamentos em relação às situações. Posso mudar uma emoção ao mudar o pensamento. E é incrível a velocidade com a qual o corpo reage à essa mudança de atitude mental. Mas pra isso é preciso um pouco de concentração, o suficiente para criar um fluxo de pensamentos intencionais.
Acho que a coisa mais legal que descobri lá é que somos capazes de controlar o fluxo dos nossos pensamentos, em vez de deixar a mente à solta todo o tempo.
Quando a mente fica solta, você sabe, vira a própria oficina do demônio…
Talvez tenha sido nesse ponto que a técnica mais me ajudou. Quando percebo que minha mente está entrando num padrão de pensamento destrutivo e circular, posso dar um “alto lá!” e me lembrar que é possível pensar diferente.
Basta esse pensamento para começar a criar um fluxo de pensamentos outros.
“Êpa! Não preciso pensar assim!”, funciona como um freio de mão, que interrompe o fluxo destrutivo. E daí a responsabilidade é nossa de dirigir os pensamentos para a direção que quisermos.
No fundo é fácil. O que pode dificultar as coisas são os pensamentos emocionalizados quando estamos num ímpeto de raiva, num acesso de tristeza, etc… Porque esses já estão reverberando no corpo e se retro-alimentando pela resposta corporal ao próprio fluxo de pensamentos.
Por isso que a gente pára, senta e respira. Pra dissipar a reação emocional ao pensamento errado. Não é pra fazer pose, não. Com a coluna ereta, a energia flui melhor pela espinha e pelos centros energéticos.
Mas dá pra controlar os nossos pensamentos em qualquer posição, viu?
É só ficar atento para perceber quando vem algum pensamento meio torto, capenga, daqueles que não servem pra nada mesmo, só pra destruir nós mesmos ou os outros. No momento em que percebemos, significa que estamos conscientes.
E com consciência, é possível escolher o pensamento mais benéfico para nós mesmos e para os outros. E assim parar de poluir a atmosfera com pensamentos que não merecem ser pensados, quanto menos ditos.
Pura ecologia…
***
Uma coisa que ajuda a mudar o fluxo é pensar: “Eu sou capaz de escolher cada um dos meus pensamentos”.
Pra saber mais sobre a Brahma Kumaris, clique aqui.
assombro
Às vezes me assombro com essa coisa de ser humana. Sabe? Dois olhos, um nariz e uma boca no meio da cara… Estruturas estranhas que recebem o nome de braços e pernas. Frio, calor, fome, sede, roupas, carro, fumaça, dinheiro, computador, sangue, choro, vômito, sorriso, abraço, olhar, sistemas de governo, escolas, disciplinas, prêmios, cinema, televisão, moda, anorexia, animais em extinção, desmatamento, água polúida, protocolo de kyoto, reuniões do g8, sustentabilidade, nova era, comunidades, gurus, psicologia, terapia, palavras, nomes, conceitos.
Mas sobretudo me espanto com olhos, nariz e boca.
Com dedos nas mãos e nos pés.
Mas aí encontro uma pessoa, e mais outra… E ninguém parece se perguntar.
Então me esqueço disso tudo por algum tempo.
Até me assombrar de novo.
desabafo
Já nadei com golfinho, mergulhei com tartaruga, vi baleia com filhote do lado do barco. Já vi jaguatirica e esquilinho no mato. Macacos e morcegos gigantes vivendo perto de onde eu morava. Lagartões de metro e meio. Já vi pingüim e foca na praia. Já vi cobra coral, veado campeiro e tucano no mato que sobrou aqui em Rio Claro. Vi gambá no campus da Unesp e em Analândia. Já vi polvo, lula, serpente marinha, tubarão, barracuda e peixe-espada. Nada disso em aquário. Já mergulhei com arraia jamanta e tubarão baleia!
Tá punk esse monte de asfalto, carro e cana de açúcar!
Vai ver as pessoas não sentem falta daquilo que não conhecem…
beija-flor
Quando meu irmão e eu éramos crianças e meus pais tinham uma casa em Monte Verde, um dos nossos passatempos favoritos nas férias no campo era brincar de poleiro de beija-flor. Isso mesmo! Hoje sei que não é muito legal para essas aves aquela tal agüinha com açúcar que a gente colocava na garrafinha florida usada pra atrair os bichinhos. Mas na época, não fazia a mínima idéia.
Gostava mesmo de ficar olhando as cores, os bicos, as penas de todas as variedades de beija-flor que viviam por lá. E dávamos nomes pra eles… o Tonico, o Marronzinho, a Marronzinha, o Verdinho, o Mascarado, o Pica-Pau, o Bico Vermelho…
Lá pro comecinho da manhã e no fim da tarde eles vinham às dezenas. Era uma algazarra de beija-flores disputando as seis florzinhas de água com açúcar que tínhamos no jardim de casa. E era nessas horas que a gente mais curtia brincar de poleiro, o que significava, basicamente, ficar com os dois indicadores sob as florzinhas da garrafa, esperando que os beija-flores pousassem na nossa mão para beber.
A princípio eles ficavam meio desconfiados, mas depois não se importavam muito. O segredo era ficar imóvel mesmo, quase que sem piscar. No frenesi da última refeição do dia (ou talvez do vício pelo açúçar?), eles olhavam pras nossas caras de estátua, onde só os olhos se moviam, e não hesitavam.
Pousavam nos nossos dedos com aquelas garrinhas leves que até faziam cócegas. Voavam em torno de nós, examinavam bem os nossos rostos, e voltavam para as garrafinhas, na maior confiança. Ficávamos horas ali parados, conversando como ventríloquos para não espantar os bichinhos. Às vezes fazia um frio danado e a gente continuava lá fora, no meio da neblina, de gorro, cachecol e dedinhos congelando.
Hoje, vez em quando, eu sonho que um beija-flor pousa no meu dedo.
bem-te-vi
As aves que vivem na cidade são tão lugar comum que sua existência passa quase despercebida. Mas hoje um bem-te-vi pousou na sacada de casa quando eu estava chegando de carro. E foi então que me dei conta de como admiro esses pássaros.
Eles tem uma imponência, uma certa soberania, e ao mesmo tempo são de uma simplicidade crua, de apenas três cores e três sílabas. Acho que o que mais admiro nos bem-te-vis é uma espécie de força selvagem, penetrante. Não, eles não têm a sutileza das andorinhas. E tampouco são estabanados como o sabiá ou barulhentos como maritacas. Embora se façam notar por seu canto agudo do alto dos fios de luz, na maior parte do tempo os bem-te-vis são apenas uma presença colorida, silenciosa e atenta. Acho que o nome bem-te-vi não é só uma rima para o canto, mas também uma expressão da natureza observadora dessas aves.
E é nesses momentos que é mais bonito de vê-los: um bem-te-vi parado, quieto, sentado no corrimão da sacada, atento, olhando a rua. E são esses os momentos pelos quais eu mais gosto de viver. O momento em que uma ave observa e se deixa observar. Observador e observado, ambos conscientes da presença alheia.
Os dois bem-se-vendo.




