Arquivo para filosofices

que venha o pior!

Faz tempo que não escrevo nada, mas vou deixar as explicações pra depois. Acabei de assistir ao Café Filosófico e de fato foi muita cafeína mental pra essa hora da madrugada.

Muito interessante. Fez questionar toda essa apologia de uma nova consciência capaz de “salvar o planeta” da “catástrofe ambiental”.

O filósofo Alexandre Mendonça explicou que isso não passa de uma outra forma do racionalismo orientado para o progresso, que sempre se volta para o desejo de um futuro melhor por não saber lidar com o presente e com a morte, que é parte da vida. O racionalismo parte de uma afetividade negativa em relação à vida, que condena a natureza humana como algo passível de ser corrigido pela razão.

Já o pensamento trágico (vem das tragédias gregas) parte de uma afetividade positiva, que vê e aceita a morte como parte da vida, e por isso abraça a vida tal como ela é.

A idéia é que não é possível uma mudança de consciência se não houver uma mudança de afetividade. Movido pela culpa e pelo ressentimento, o racionalismo sempre se engajará num projeto capaz de criar um futuro melhor e continuar negando a vida no presente.

E esses projetos baseados na negação da vida, que enaltecem um domínio ilusório do homem sobre o acaso e sobre a natureza, são obviamente incapazes de controlar a realidade.

Para cada invenção do progresso humano, há sempre uma catástrofe proporcional ao benefício que ela oferece. Quando o homem inventou a bicicleta, ele também inventou o tombo de bicicleta. Quando inventou o carro, o acidente de carro. O avião, o acidente de avião. E assim por diante, até a energia nuclear. Quanto mais próximo do céu ele tentou chegar, mais as catástrofes o levaram ao inferno.

Segundo ele, o desafio não está em tentar descobrir onde a racionalidade errou, mas simplesmente admitir que a própria racionalidade é falha. Que a vida é muito maior do que ela.

O homem não está verdadeiramente preocupado em “salvar o planeta”, mas sim em lutar contra a sua própria finitude, em salvar a si mesmo. A vida, com ou sem seres humanos, continua. Formas de vida se extinguem para dar origem a outras formas. A única coisa que se sabe é que nada é permanente.

Nessa linha de raciocínio, ele disse que a afetividade positiva do pensamento trágico deseja e espera “pelo pior”. O pior, nesse sentido, é o próprio acaso.

É como quando num momento de alegria, desejamos viver a vida toda de novo, exatamente da mesma forma, com todas as suas tragédias, porque, enfim, está é a vida.

A idéia da catástrofe, por outro lado, infunde mais culpa e ressentimento no homem, que deseja “consertar” sua natureza, almejando um projeto de futuro melhor, controlado por ele, por meio da racionalidade. Isso esvazia o ser humano de sua própria potência, porque nega sua natureza.

Por outro lado, desejar o “pior” parte de uma afetividade positiva que integra todos os aspectos do ser humano e o fortalece.

Os filósofos de plantão que me perdoem pela simplificação. Talvez eu tenha atropelado os conceitos, mas essa foi a forma como eu entendi. E, filosofês ou não, isso fez sentido pra mim.

Porque ficar me sentindo culpada por andar de carro ou por consumir lâmpadas econômicas tóxicas que não podem ser recicladas não faz muito bem pra minha saúde, não…

Se em vez dessa militância baseada na afetividade negativa, na crença de que nosso projeto deu errado e que precisamos nos esforçar para “salvar o planeta”, a gente esforçasse mais para ser feliz nesse momento, abraçando a vida tal como ela é – riso e dor e morte e acaso-, acho que o contentamento e a alegria decorrentes seriam muito mais benéficos para o ambiente ao nosso redor do que uma lâmpada fluorescente.

Até porque quando inventamos a lâmpada, também inventamos a queda da lâmpada.

E se o pior é a vida – com lâmpadas que quebram, brisas e tempestades, sol e chuva, nascimento e morte -, que venha o pior!

se isso, então aquilo

Lembrei de uma coisa legal… Assisti esses tempos ao filme “Eterno Amor”, do diretor francês Jean-Pierre Jeunet, o mesmo que fez “Amelie Poulain”. Aliás, esse também é com a Audrey Tatou, a Amelie. Esse aqui é um pouco mais sombrio que o primeiro, mas tem suas esquisitices divertidas. Uma delas é a mania que Mathilde (Audrey Tatou) tem para comprovar sua intuição de que o noivo não morreu na guerra. Lá está ela, no quarto, esperando o tio entrar para servir o café da manhã. Aí ela diz: se o cachorro der três voltas para a direita antes de deitar e meu tio trouxer panquecas de morango, isso significa que meu noivo está vivo. Se o passarinho fizer cocô no vão da porta, quer dizer que ele está vivo. Se o sino da igreja tocar ao mesmo tempo que o carteiro escorregar nas pedrinhas na frente da casa, ele está vivo. Ela faz isso várias vezes durante o filme… Escolhe qualquer combinação esdrúxula de fatos e a transforma num oráculo.

Prático, não?

E eu aqui tentando decifrar o I-Ching.

No mais, recomendo o filme.

sonhos

Que vontade de ler de novo o “Cem Dias Entre Céu e Mar”, do Amyr Klink. Taí alguém que sonhou em atravessar o Atlântico a remo, foi lá e fez. O livro é muito bom, com uma narrativa dinâmica e inspiradora. A gente termina a leitura com uma fé renovada no potencial humano. Ele podia ter ficado em casa, seguindo sua vidinha, achando que aquilo era impossível. Ele podia ter dito pra si mesmo: “ah, é só um sonho…” e continuar vivendo, ou sobrevivendo, com um sonho engavetado… Mas decidiu acreditar e ir atrás daquilo que ele mais gostava de fazer, do que ele sonhava em fazer. Quanta gente com sonhos empoeiradinhos disse pra ele que aquilo era uma loucura?

***

Ando me perguntando para que servem os sonhos, se não para cultivá-los e segui-los. Se não for pra transformar nossos sonhos em nossos guias, pra que eles servem então? Quantos sonhos engavetados existem para cada sonho realizado?

Sei não… Mas acho que tá na hora de tirar a poeira dos meus.

assombro

Às vezes me assombro com essa coisa de ser humana. Sabe? Dois olhos, um nariz e uma boca no meio da cara… Estruturas estranhas que recebem o nome de braços e pernas. Frio, calor, fome, sede, roupas, carro, fumaça, dinheiro, computador, sangue, choro, vômito, sorriso, abraço, olhar, sistemas de governo, escolas, disciplinas, prêmios, cinema, televisão, moda, anorexia, animais em extinção, desmatamento, água polúida, protocolo de kyoto, reuniões do g8, sustentabilidade, nova era, comunidades, gurus, psicologia, terapia, palavras, nomes, conceitos.

Mas sobretudo me espanto com olhos, nariz e boca.

Com dedos nas mãos e nos pés.

Mas aí encontro uma pessoa, e mais outra… E ninguém parece se perguntar.

Então me esqueço disso tudo por algum tempo.

Até me assombrar de novo.

será?

parece que para saber o que é o amor
a gente tem que experimentar o que ele não é

rabisco

o outro é mistério
próximo-distante
escondido entre arestas
multifacetado
capturado num instante

o outro é império
rios atrás de montes
estradas sinuosas
falsos horizontes:

o outro é abismo,
precipício,
é fim e início

o outro é rabisco
do mapa do enigma
o outro é a linha
no labirinto;
o eterno sacrifício

o outro é espelho
movimento duplicado
alice e coelho
quem é quem detrás
do vidro espesso?

o outro sou eu
quando de mim esqueço

evolução

O logo do Doutores da Alegria.

a vida é circo

Tem dias em que a gente doma a fera. Outros em que viramos palhaços ou andamos na corda-bamba. O dia-a-dia é cheio dos malabarismos, e às vezes o trapézio impulsiona num vôo mais arriscado. Confesso que tenho meus dias de mulher barbada, sai de baixo!

Mas esses tempos tenho me sentido muito mais equilibrista.

cura na tela

Assisti dois filmes com o Robert Redford nesses últimos tempos que me tocaram bastante e me fizeram derramar umas lágrimas bem justas, daquelas que a gente chora com gosto.

O último foi “O Encantador de Cavalos” (The Horse Whisperer), de 1998, dirigido pelo próprio Redford. Um filme sobre a recuperação de uma menina e seu cavalo traumatizados depois de um terrível acidente. Redford interpreta um vaqueiro rústico, silencioso, mas que preza pela simplicidade das coisas e tem o dom de “ouvir a alma” dos cavalos, e não só dos cavalos…

O outro foi “Um Lugar para Recomeçar” (An Unfinished Life), de 2005, dirigido por Lasse Halström, o mesmo que fez “Chocolate” e “Regras da Vida”. Esse não tem cavalos, mas tem um urso. E a atuação sensível do Morgan Freeman. Também é bem forte. É uma história sobre rancor e perdão. Sobre o aspecto selvagem da vida, que nos fere apenas porque não aceitamos que certas coisas fazem parte da natureza.

Os dois filmes têm muito em comum, inclusive alguns personagens-arquétipos semelhantes e até uma cena que parece citação. Ambos falam das forças da natureza, dentro e fora do homem. Falam de como a vida fere e cura.

Altamente recomendável!

P.S.: No “Encantador de Cavalos”, tem uma cena que pra mim virou a quintessência da aceitação. Lá pelas tantas perguntam pro personagem do Redford: “Por que tudo isso foi acontecer?”. Ele responde: “Não sei, não me faço esse tipo de pergunta”.

follow your bliss

Esse Joseph Campbell era mesmo um homem sabido. No documentário “O Poder do Mito” ele falou uma coisa bem das boas… “Follow your bliss”, ou seja “siga a sua alegria”, aquilo que faz com que os seus olhos brilhem. Aí ele diz, com humildade: “tem funcionado”.

E é tão prazeroso ver como o rosto dele se ilumina quando conta as histórias, que só isso vale tanto quanto ouvir o que ele fala.

***

Lembrete diário: o que faz os meus olhos brilharem?

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