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história de dragão
Era uma vez e não era uma vez uma menina que tinha muita curiosidade pelas palavras. Não por palavras de qualquer tipo, mas por aquelas escritas no papel. Olhava intrigada para os adultos que passavam horas escondidos atrás dos jornais na poltrona da sala, absortos em decifrar aquele monte de sinaizinhos pretos no papel imenso. Não entendia os rabisquinhos que as pessoas grandes faziam a torto e a direito, os envelopes que o carteiro sabia onde entregar, as esquinas com placas coloridas que faziam os carros virar.
Ainda pequenina ficava imaginando que mistérios as palavras escritas escondiam, que coisas estranhas elas diziam. Descobriu que as letras se juntavam para formar os nomes das coisas, e que os nomes se juntavam para contar coisas sobre as coisas… E assim passava horas folheando as revistas da mãe e contando em voz alta suas histórias imaginadas.
Nem preciso dizer que ela adorava sopa de letrinhas. Tinha certeza de que limpando o prato, comendo todinhas, até mesmo as letras mais esquisitas, acordaria no dia seguinte sabendo todas as histórias que elas tinham pra contar. Bom, talvez nem todas, mas sempre se lembrava das mais bonitas.
E assim ela cresceu. Uma parte dela andava descalça, brincava na terra, jogava bola e pulava sela como as outras crianças. Mas outra parte, a que tinha medo do escuro, vagava por paisagens bem diferentes: pulava muros, voava em dragões coloridos, navegava em barrigas de baleias e em mares de sereias.
Quando finalmente aprendeu a ler e a escrever, soube que aquele outro mundo em que ela vivia existia também em outro lugar: nos livros de fantasia. Então sua imaginação voou mais alto, viveu aventuras em ilhas perdidas, casas assombradas e bosques de árvores falantes. Comeu casas inteiras de chocolate e fez amizade com gigantes.
Mais tarde percebeu que também podia organizar as letras para formar nomes e juntar os nomes para contar coisas e assim escrever suas próprias histórias. Quando fazia isso, aquele mundo em que ela vivia saía da memória, ficava mais real, e ela podia convidar outras pessoas para brincar nele também.
E então pôs-se a escrever.
Escreveu sobre castelos, princesas, tartarugas viajantes e poetas ambulantes… Escreveu sobre mamutes e elefantes. Sobre pessoas azuis e mundos sem igual. Escreveu sobre o bem e o mal.
…
E assim foi até o dia em que teve de responder à pergunta que fazem a todas as crianças mais ou menos grandinhas:
“O que você vai ser quando crescer?”
Como o que ela mais gostava era escrever, resolveu ir para uma escola em que as pessoas aprendiam a escrever histórias.
No começo, tudo ia bem… Conheceu outras crianças como ela, que também gostavam de juntar as letras para formar nomes e juntar os nomes para contar coisas sobre as coisas.
Mas aos poucos foi descobrindo que havia algo de errado com as histórias que as pessoas contavam naquela escola. Todas elas tinham de ser reais, sobre coisas que de fato existem nesse mundo que os olhos podem ver. Não podia escrever nada inventado, não podia dar nenhuma notícia do seu mundo imaginado, tudo tinha de ser baseado em fato.
Tudo bem… Talvez isso seja crescer, pensou. E se rendeu a aprender como fazer pra contar sobre as coisas que já existem. Às vezes dava uma ou outra escorregadela, a imaginação escorregava pela manga e alcançava os dedos no teclado, inventando uma coisinha ou outra num texto pra lá de chato.
E assim passou por anos de treinamento, trancafiando sua imaginação como a um dragão enjaulado. O que ela não sabia é que como não colocava mais as suas histórias no papel, elas iam se enrolando dentro dela, num carretel. Não demorou para que a menina, já grande, passasse a viver muito mais na fantasia do que no mundo real sobre o qual ela escrevia todo dia. A parte dela que andava descalça e pulava sela já quase não existia.
E, não sei se vocês sabem: os monstros da nossa infância crescem junto com a gente. Como as histórias não eram mais contadas, ficaram todas emaranhadas. Agora, no mundo da sua imaginação, só sobrara o medo do escuro e um grande dragão. E quanto mais ela ignorava o dragão de quando era menina, mais ele botava fogo pela narina.
Ela já não distinguia o que era real e o que era fantasia. No meio da confusão, tudo era dor e frustração. Até que um dia, um sábio doutor, que tudo sabia, apresentou-lhe a solução.
Tudo o que ela tinha de fazer, até o fim dos dias, era escrever sobre o dragão.
O doutor falou que conhecia muita gente que só vivia de ilusão. Isso é complicado, ele disse, porque se as histórias não acontecem, o contador fica frustrado. Quando o dragão da fantasia é trancafiado, ele se volta contra o próprio criador. Mas quando a gente escreve, ele voa, e liberta a imaginação. E a pessoa pode viver uma realidade mais tranqüila.
E foi assim que ela encontrou a ponta do carretel emaranhado, voltando a escrever sobre seu mundo imaginado. Contou tudo o que sabia sobre o dragão inventado: como suas unhas eram negras, como suas asas eram brilhantes e suas escamas eram secas. Como ele gostava de voar alto no céu e quando era preso fazia um escarcéu.
Esse primeiro texto que ela escreveu sobre o dragão terminava assim:
“Um passarinho me disse que quando uma história é contada, ela deixa de viver dentro da gente. E a gente é que passa a viver dentro dela. É assim que os grandes dragões perdem a maldade e os sonhos se transformam em realidade.”
ponto de intersecção
Cidade de São Paulo, 10 milhões de habitantes. Ponto de ônibus, bairro da Aclimação.
- Faz tempo que você está esperando? – ela perguntou, torcendo para que a resposta fosse positiva para que o próximo ônibus chegasse logo e ela não se atrasasse para abraçar a amiga – e tentar matar em duas horas as saudades de meses.
- Uns vinte minutos, cheguei e o Terminal Princesa Isabel tinha acabado de passar, respondeu o homem.
- É, ele demora. – “Acho que vai dar tempo”, pensou aliviada e virou-se, olhando para o infinito de onde os ônibus vêm.
- Tomara… Tive que pegar três conduções para chegar aqui. Primeiro desci no metrô Liberdade, e me disseram que o banco que eu procurava ficava no metrô Brigadeiro. Voltei para o Brigadeiro e me disseram que ficava aqui na Aclimação. Demorou, mas achei. Finalmente consegui pagar minha dívida. – disse ele.
Ela não estranhou tanto a conversa. Está acostumada a ouvir estranhos contarem suas vidas em lugares improváveis, em resposta a uma simples pergunta. Não que ela se esforce para que isso aconteça. Mas talvez tenha escondida no rosto ou no olhar alguma avidez por histórias da qual ela mesma não se dá conta.
Às vezes se aborrece, quer ficar só com os seus pensamentos, sua fantasia. Outras se finge interessada. Mais raramente ouve com um misto de atenção e desconfiança. E só muito de vez em quanto interage. Mas o fato é que as pessoas falam, têm necessidade de lhe falar.
Talvez seja a própria vida lhe dizendo para não ensimesmar. “Preste atenção! Eu também tenho uma história!” – dizem os desconhecidos nos elevadores, rodoviárias, pontos de ônibus, de intersecção.
Enfim, deu ouvidos… O homem também não era do bairro, morava longe, empreendera uma odisséia para conseguir pagar uma dívida de seis mil reais para o banco. Dinheiro fagocitado por juros depois de quatro meses desempregado, vivendo à base de cartão de crédito e cheques sem fundo. Realidade dura. A seca da cidade grande. Sabe-se lá com quanto esforço conseguira pagar.
Ela mesma não sabe o que é isso. Tem dívidas de outro tipo. Uma delas com a realidade.
- Não uso cheque nem cartão, falou. Para não correr o risco. – disse ela, rendendo-se à conversa.
- É, nunca mais faço isso! O gerente do banco falou para mim: mulher e dinheiro a gente não toma emprestado.
- Mas que bom, agora você está livre, né?
- É… Aprendi a lição. Dia 12 agora fiquei mais velho, nessa eu não caio mais…
De súbito ela se interessou; vislumbrou uma janela de fábula entreabrindo-se no real.
- Dia 12? Verdade? Não acredito! Eu também sou do dia 12!
- De setembro?, ele perguntou.
- É! Fazemos aniversário no mesmo dia! Quantos anos você tem?
- 34, disse o homem do ponto de ônibus.
- Eu fiz 33.
- Por pouco não é a mesma data, disse ele. – Olha, o ônibus!
Tinha ficado tão surpresa que não se dera conta do veículo que irrompera do vazio. Até então, em 33 anos de existência, só tinha conhecido outra pessoa que aniversariava no mesmo dia. Os dois subiram, ela passou pela catraca, pensando em continuar a conversa e satisfazer sua necessidade repentina de saber da vida inteira em mínimos detalhes do homem do ponto de ônibus.
Mas por algum motivo ele decidiu ficar na parte da frente. Ela não entendeu. Passou os olhos por alguns acentos vazios no fundo e escolheu o seu. Que pena…
Alguns pontos mais tarde, o homem do ponto de ônibus passou pela catraca, deu sinal para descer e acenou quase imperceptivelmente com a cabeça, num gesto furtivo e embaraçado.
Como um desconhecido que se sente observado.
Ou como quem esconde algo de alguém que o conhece bem.
Ponto de interrogação.
coruja
Saí na varanda do escritório aqui em casa e, parada sobre a caixa d’água da casa do vizinho, estava essa coruja olhando na minha direção. Dei aquele gritinho de “olha, uma coruja!” e ela quase voou de susto, mas eu recuei e ela desistiu da idéia. Fiquei apertando meus olhos míopes durante um tempão, tentado observá-la melhor, enquanto ela continuava por ali, respondendo aos gritos de outra coruja mais ao longe. Trocamos uns “uuuu uuuu uuuu” e pedi educadamente pra que ela não saísse do lugar até que eu pegasse a máquina fotográfica.
Desci e subi duas vezes até encontrar a máquina e quando voltei ela ainda estava paradinha na caixa d’água do vizinho… Tirei uma foto. Na segunda já peguei ela armando o vôo. E não é que a danadinha veio parar mais perto de mim ainda? Talvez a uns dez metros de distância. Bem em frente ao telhado que dá pros fundos aqui de casa… Pena que já estava escurecendo e as únicas fotos que ficaram mais ou menos boas foram as com flash, que deixaram os olhos dela brilhando. Mas valeu…
Pra essa última, precisei usar o meu melhor corujês pra que ela olhasse para a câmera. Funcionou… ;-)
admirável mundo novo
Final de domingão, dia de ver irmão, cunhada e sobrinha.
Parece que depois de ver a nenê, que já não é mais tão nenê assim com seus 10 meses, a gente sai com a alma cheirando a lavanda. Criança é um barato. Ela está numa fase muito bacana de explorar tudo ao redor. Uma coragem inocente. Sem nenhuma noção de perigo, sai desbravando o mundo de gatinhas e macacão. É muito bonito de ver! Merece umas palavrinhas…
atravessa a cozinha engatinhando
à velocidade da luz
ontem mesmo estava mamando
hoje só quer papinha
já tem três cachinhos no cabelo fino
e balbucia palavras que só ela entende
danada da menininha
se diverte subindo e descendo um degrau
e bate palminhas sorridente
de colo já não quer saber
não, seu negócio é o chão
ensaia um passo aqui, leva um tombo acolá
abre o berro e, olha só: dois dentes!
mas logo volta à tarefa de descobrir o mundo
incansável, se arrasta de macacão
o universo na palma da mão
tudo muda
Aviso aos navegantes que o blog ficou verde mesmo. Depois de ensaiar várias mudanças no visual, aconteceu essa meio que por cagada e acabei gostando. Talvez seja assim mesmo que as mudanças se dêem na nossa vida, sem muito planejar… Simplesmente abrindo espaço pra que elas aconteçam. Fuçando as templates de blogs e experimentando, sem muita pretensão.
Às vezes a gente pensa que as mudanças dependem só de nós, esquecendo que a Roda gira e que a nossa tarefa não vai muito além de dançar conforme a música. Tá, tem vezes que é necessário dar um empurrãozinho na agulha da vitrola, ou colocar o CD player na tomada, ou apertar o play do MP3. Você entendeu… Às vezes a gente precisa dar um clique.
Mas uma vez que a música está tocando, o lance é só sentir o ritmo e se deixar levar. Se você não é do remelexo, pelo menos bata o pezinho. Certifique-se de estar na batida da música, senão o resultado fica meio desengonçado. Depois de passar por uma fase de um certo descompasso, em que dancei um verdadeiro tango argentino ao som de um popzinho insosso, parece que comecei a perceber o ritmo do que está tocando de novo! Ufa!
Nesse meio tempo, percebi que precisava mudar. Senti que a música que estava tocando tinha outro ritmo. Mas meu corpo estava muito condicionado ao tango… Tocava um rock ou um forró e eu continuava com a rosa na boca e aquela cara de fatalidade. Oh!
Fiquei me esforçando pra dar uns passos novos aqui e acolá, imaginando como seria me balançar ao som de um reaggae, ou, quem dera, ter o samba no pé. Mas quanto mais eu me esforçava pra mudar o meu jeito de dançar, parece que mais trocava os pés pelas mãos. Estava esquecendo o fundamental, que era só sentir a música e deixar o corpo se expressar. Se não é hora de dançar agarradinho, que venha o punk rock!
Até que, finalmente, não precisei ensaiar nenhum passo novo e a música mudou.
Semana passada, um instrutor de mergulho daqui de Rio Claro, com quem eu tinha feito contato no ano passado, me convidou pra trabalhar com ele. A princípio hesitei, com medo de dar um passo em falso. Mas a vontade de colocar de novo o equipamento e voltar a respirar debaixo d’água foi maior. E, quando vi, meus pés já estavam batendo sozinhos, o corpo já se mexendo involuntariamente ao som da música.
Lembrei de uma citação do Guillaume Appolinaire que li há pouco tempo, que teve um impacto forte em mim:
“Nós os conduzimos até a borda e pedimos que voassem. Eles não arredaram pé. Voem, dissemos. Eles não se mexeram. Nós os empurramos para o abismo. E eles voaram.”
Voar, dançar… Qualquer que seja a metáfora, o fato é que a música mudou por si só. E eu é que não vou ficar fazendo cara de tango argentino quando o momento pede pra dançar ao som do Lulu Santos!
Dá licença, que eu me permito:
“A vida vem em ondas
como um maaa aaa aaar…
Num indo e vindo infinito”
***
Como Uma Onda
Composição: Lulu Santos / Nelson Motta
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará
A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Nada do que foi será
De novo do jeito
Que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará
A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
fazendo faxina
Andei faxinando a casinha de Analândia esses tempos e foi uma experiência muito boa. Fazia tempo que eu não cuidava dessas coisas porque aqui em casa tem a Bete pra salvar a pátria. Então aproveitei a semana que passei por lá para pegar na vassoura, tirar teias de aranha e as traças penduradas na parede (finalmente entendi a expressão “abandonado às traças”), e , pra variar, perceber o sentido metafísico ou metafórico de tirar a poeira das coisas.
Enquanto varria os cantos mais difíceis, me livrava dos carrapichos grudados nas roupas (o gramado está cheio deles, uma praga), lavava louça e espanava os móveis, iam caindo as fichas sobre a faxina interna pela qual estou passando ultimamente. (Porque chega uma hora em que a gente percebe que não dá mais pra varrer tudo pra debaixo do tapete, né?) Daí que acabei escrevendo algumas anotações que podem vir a ser úteis pros faxineiros de plantão… Aí vão elas:
Varrer é Preciso
Quem já limpou casa sabe que não adianta nada chegar com um esfregão molhado se os tufos de poeira se acumulam pelos cantos. Tem que varrer antes, ou seja, fazer a varredura da sujeira que se acumulou com o tempo. Varrer é reconhecer o território, saber o quanto de trabalho teremos pela frente.
O primeiro passo é limpar o mais grosso. De que vale ficar polindo um móvel lustroso se a casa inteira está cheia de poeira e traças pelos cantos? À medida que varremos a poeira mais óbvia, vamos percebendo aqueles cantinhos onde ela se acumulou há mais tempo. Esses são os ângulos da nossa sujeira, os lugares em que as coisas de fato se acumulam – pode-se pensar em complexos, condicionamentos, todas as mágoas que fomos guardando sem prestar atenção.
Quando varremos os cantinhos atrás das portas, da mobília, etc, descobrimos lugares ainda mais remotos com uma sujeira verdadeiramente ancestral! Sabe aquela sujeira meio grudenta atrás do fogão, debaixo do balcão da pia, daqueles lugares que ninguém nunca mexeu antes? É a sujeira avó, a sujeira que tá no código genético de tão impregnada. Então… Essa, de primeira, não dá pra mexer. Mas é bom saber que ela existe. Já dá pra fazer planos de comprar um vaporetto no shoptime ou um daqueles produtos que tem “magic” no nome. Mas isso só depois de limpar o grosso.
Levantou Poeira
É normal que quando a gente comece a varrer a casa a poeira levante. Se for um daqueles dias secos, de vento então, o bicho pega. E se não estivermos bem conscientes de que estamos no meio de uma faxina, poder dar um certo desespero ver tanto pó… Fica difícil respirar, difícil enxergar.
Nesse caso, como na faxina material, um pouco de água resolve. Água no paninho que tira pó dos móveis, água pra lavar a louça acumulada, água pra lavar o banheiro. Ela ajuda a assentar a poeira e a enxergar mais claramente. Então prepare os lenços de papel e chore à vontade, porque a faxina está só no começo!!!
De início, pode parecer muita poeira pro nosso caminhãozinho… Nesse caso é bom se concentrar numa área pequena, não adianta tentar limpar tudo ao mesmo tempo. Perceber que já conseguiu lavar toda a louça e a pia da cozinha está brilhando pode dar um ânimo novo pra continuar com a faxina.
Música é Fundamental
Aqui não é preciso dizer muita coisa, afinal, quem canta seus males espanta. A música tem me ajudado muito nessa tarefa de faxinar dentro e fora. A vida sem música é muito chata. E tem tanta trilha sonora boa pra faxina. Tem aquelas músicas que relaxam quando a gente tá uma pilha, tem aquelas que cantam exatamente o que a gente sente, tem as que fazem a gente pular sem motivo e as que levantam o astral pra pegar no batente. Ninguém precisa de iPod pra isso, porque também tem a música que tá dentro da gente, aquelas melodias inventadas, com letras sem pé nem cabeça… Essas são as mais legais. Às vezes, confesso, eu canto em baleiês.
Pare um pouquinho, descanse um pouquinho
Se ficar cansado, pare um pouquinho… Vá caminhar, ver um filme besta, dar umas risadas, andar no mato, tomar sol. Isso é fundamental. Fazer faxina cansado ou de saco cheio é pior, porque a gente pode até ficar doente de ver tanta poeira ou mexer na água fria. O corpo precisa estar bem, no pique pra arrastar os móveis, bater os tapetes e lavar cortinas.
Visitas
Sabe aquele ponto da faxina em que tudo parece de pernas pro ar? Tapetes enrolados, móveis afastados, camas desfeitas, panos por todos os lados e montinhos de pó esperando a pá? Pois bem, esse é um péssimo momento para chamar as visitas pro chá das cinco. Senão é bem capaz de você oferecer uma xícara com batom na borda ou bolo com cabelo.
Bom mesmo é receber os amigos e os conhecidos quando a casa estiver limpa, em ordem, sem essa de “não repare a bagunça”. Aí dá pra curtir mais ficar com os nossos convidados. Mas nem sempre é possível se isolar pra fazer nossa tão necessária faxina.
Por enquanto, como você ainda não está em condições de fazer sala, pelamordedeus evite receber aquelas pessoas que vão só apontar pros seus cantos imundos (como se elas não os tivessem) e criticar as perninhas de barata e cacos de vidro que você ainda não varreu! Quando isso é demais, ou vem disfarçado de conselho, ou então pega a gente desprevenido, pode ser desanimador. Não deixe ninguém com os pés enlameados trazer mais sujeira pra dentro.
As únicas pessoas que podem te visitar nessas horas são os amigos do peito mesmo. Aqueles que te conhecem bem e gostam de você independente da poeira. Como bons amigos, eles até podem te ajudar a passar um paninho molhado, trazer um CD pra levantar o astral, ajudar a cortar a grama, desenferrujar o portão…
Ajuda especializada
Às vezes a gente precisa mesmo de uma ajudinha… Quando os amigos não são assim tão solícitos, ou quando é impossível dar conta sozinho da própria sujeira, é bom contratar alguém que entenda do serviço a ser feito. Talvez seja difícil arrumar uma boa faxineira, mas com otimismo, sorte e algumas tentativas a gente pode arrumar alguém cujo santo bata com o nosso e que possa nos ajudar a entender a nossa bagunça.
Se você chegou num ponto em que não consegue enxergar mais nada, chame alguém para limpar os vidros. Aí vai dar pra ver onde foi que você guardou a vassoura, o pano de chão… Com alguém do nosso lado, o trabalho fica bem mais fácil e até divertido.
Lixo
Não se esqueça de reservar muitos sacos de lixo pra dar um destino à sua sujeira. Não adianta nada varrer e juntar os tufos de poeira pelos cantos. Tem que saber que é preciso jogar fora certas coisas. Outras podem ser reaproveitadas, recicladas. Algo que era entulho em um lugar da casa pode ganhar utilidade em outro. Percebi também que estando mais próxima da natureza, a poeira devidamente molhada vira terra fértil pra plantar aquele sonho que estava mofando na gaveta. (No meu caso, por exemplo, a faxina tem me ajudado a voltar a escrever. Ou será que escrever é que tem me ajudado a faxinar? Mmm…)
A vassoura mágica
Nossa amiga tão indispensável para a limpeza também pode se tornar nossa pior inimiga (já dizia o Gita). Sabe aquela vassoura que tem pelinhos na ponta e vai acumulando a sujeira dos lugares por onde passa? Quando você chega na metade da limpeza descobre que está mais sujando do que varrendo. Ela vai deixando migalhas, montinhos pretos e engordurados pelo caminho. Se passa por um chão molhado, então, é um verdadeiro estrago.
Pois bem, limpar a vassoura é fundamental. Ela é a nossa principal ferramenta na limpeza. A vassoura faz um trabalho parecido com o da nossa mente na faxina interna. Ela leva a atenção para a sujeira a ser removida. Quando está limpa, ela não se espanta com a sujeira porque sabe que é apenas uma faxina. Ela não se intimida porque está disposta a trabalhar e sabe que não adianta torcer o nariz, nem de desgosto, nem na tentativa de arrumar tudo num passe de mágica à la Feiticeira.
A boa vassoura está sempre consciente do que está acontecendo dentro da casa e de sua responsabilidade. Ela sabe quais os lugares que deve acudir primeiro e o que pode esperar mais uns dias. A vassoura, quem diria, é uma ferramenta de discernimento!
Por fim, como toda bruxa que se preze sabe, as vassouras também foram feitas pra voar! Termine sua faxina, limpe bem a sua vassoura e lá vamos nós! (Quem não viu esse episódio do Pica-Pau que me perdoe.)
***
Por aqui, ainda tenho uns móveis pra arrastar, mas assim que aprender a usar o esfregão, dou notícias! E lá vamos nós!
***
Ah, deixo aqui também uma dica de leitura que me inspirou bastante pra esses assuntos relacionados a faxina e arrumação:
“Arrume sua bagunça com o Feng Shui”, Karen Kingston, editora Pensamento.
a lusitana roda
Hoje tive motivo pra dar risada… Voltei de viagem no meio da tarde e, depois de traduzir um pouquinho, saí para a terapia já meio atrasada.
Da última vez que estacionei lá perto fiz a baliza mais perfeita do mundo, de primeira, num espaço em que só cabia o carro mesmo. Tudo bem que a vaga era uma porcaria e tive que me esgueirar entre os galhos de uma árvore pra poder sair. Mas de qualquer forma, foi uma das 5 balizas dignas de Guiness Book da minha vida. Não que eu seja ruim de baliza, pelo contrário, mas tem umas que são verdadeiras obras de arte, daquelas que a gente torce pra que tenha alguém na rua olhando (principalmente os homens que torcem contra nossa capacidade de estacionar).
Então eis que hoje fui chegando meio atrasada naquele mesmo quarteirão e tinha um espação imenso pra estacionar, de frente mesmo, sem nenhum cálculo trigonométrico e olho no retrovisor. Mas como tinha um carro saindo logo atrás de onde eu ia parar, resolvi dar uma aceleradinha e estacionar num ímpeto ninja.
Yaaaaaaaa!!!!!! Lá vou eu!
Bom, fui tão ninja que a roda da frente deu aquela lambida na guia. Ou, melhor dizendo, foi a guia que comeu a roda da frente com aquele som característico de metal raspando na pedra, horrível! Pior que unha na lousa. Na mesma hora pude ouvir um sonoro Fssssssssssssssssssssssssss… Isso mesmo… O pneu, que já tinha andado meio murcho quando peguei o carro na oficina, furou de vez.
Considerei por um instante. O carro estava parado. Ativei o alarme. O pneu não ia sair do lugar. Ninguém ia querer roubar o carro assim. Ou seja, o carro não ia sair do lugar. A vaga é OK, não tem zona azul. Então tudo bem.
E lá fui eu pra terapia… Que mais podia fazer? Fui andando já pensando em como ia contar a história trágica pra terapeuta naquele espaço de um quarteirão até chegar ao consultório dela. É claro que quando a gente sai do carro depois de ter feito uma cagada dessas, por menor que seja, fica um pouco consternada. Afinal, não é lá um sinal de muito equilíbrio sair batendo roda na guia a torto e a direito. (hihihi, a torto e a direito… hihihi)
Pois bem, os primeiros cinco pensamentos foram um tanto quanto punitivos, do tipo: “olha só como estou me locomovendo no mundo, ai meu deus!”, ou “o carro representa como eu dirijo a minha vida, ai jesus!”… E ao mesmo tempo ia pensando em chegar na terapia e falar “ai, socorro, olha o que eu fiz”. Mas lá pela metade do quarteirão enquanto formulava minha historinha, já comecei a dar risada… Afinal de contas… Fssssssssssssssssssssss… Lá estava o pneu esvaziando tranquilinho.
Pois bem, cheguei, contei do carro e miraculosamente esqueci do pneu por completo durante a uma hora e meia de conversa que se seguiu. Que, aliás, teve muitas gargalhadas – nenhuma sobre o pneu, que a essas alturas já estava totalmente no chão, sem um suspiro de ar.
Um pouquinho antes de terminar a sessão é que me lembrei: “raios, ainda tenho que trocar um pneu! (raios múltiplos!)”
Terapeuta holística é bacana por isso, ela se ofereceu pra ir junto comigo dar um apoio moral.
Mas o que se seguiu foi ainda mais desmoralizante!!! Eu tinha esquecido que tinha um colchão no porta-malas, que eu trouxe na viagem e fiquei com preguiça de tirar quando cheguei em casa. Ou seja, quando fui procurar o estepe, salta um colchão densidade 33 enrolado que nem uma mola dentro do porta-malas do Corsa (coube!). Não, não era um colchonetinho desses que a gente leva pra passar o fim-de-semana, era um senhor colchão de solteiro que trouxe hoje de Analândia.
Ok, entre risos explico o colchão rapidinho enquanto encosto ele na lateral do carro, do lado da rua, é óbvio. Então tá, agora é só pegar o estepe, o macaco, a chave de pneu… Já fiz isso antes… Mas é claro que é de noite, o porta-malas não tem luz e não dá pra enxergar nada com a luz da rua. Tateio pra levantar o tapetinho e procurar o estepe. No mesmo momento em que estendia a minha mão pra alcançar o pneu, veio um flash de quando fui pegar o carro com meu irmão em Santa Bárbara, meses atrás. Ele disse: “Boa sorte, espero que o pneu não fure na estrada, porque o estepe está…
Furado.” Murchinho…
Bem que meu irmão tinha me avisado… Mas a informação ficou escondida num canto remoto do meu cérebro, que obviamente não se preocupa muito com estepes em porta-malas.
Conclusão: lá estou eu no meio da rua, já de noite, com um colchão, um carro com dois pneus furados e uma terapeuta. Bom né?
Sem seguro e sem celular, aceitei voltar pro consultório pra ligar pro meu pai.
- Pai, vem me salvar?
Que tal isso pra uma terapia?
Bom, como dizem, no final tudo acaba bem, e se não acabou bem é porque ainda não chegou ao final. Depois disso, tudo foi bem sincronizado. Meus pais chegaram, levaram o estepe pra arrumar no vizinho da frente do escritório, pra onde eles já estavam indo de qualquer jeito. Quando minha mãe terminou o que tinha pra fazer, o pneu ficou pronto. Eles chegaram com o estepe consertado bem no momento que os pasteizinhos que eu tinha encomendado ali do lado já estavam na mão.
Aí foi sopa, só trocar o pneu e chegar em casa pra comer pasteizinhos e confraternizar a minha volta pra Rio Claro depois de uma semana fora. (Deu pra notar que eu cheguei?)
Mas apesar de ainda ter duas traduções pra fazer às dez da noite, e do pequeno contratempo à la inspetor Clouseau (graças a Deus não botei fogo no colchão no meio da rua), terminei o dia com uma sensação boa. De conseguir rir das situações que eu bem podia ter transformado em drama.
Quanto ao jeito de conduzir a minha vida… Bem, agora já sei que preciso consertar o pneu (que aliás está careca de saber disso), talvez não superestimar demais minhas habilidades ao volante, e continuar indo na terapia dar umas boas gargalhadas de tudo isso…
Como diria o grande filósofo Bozo:
“Sempre rir, sempre rir… Pra viver é melhor sempre rir…”
o equinócio e o yin & yang
Hoje conversei com duas amigas muito queridas pelo Skype, simultaneamente, num chazinho da tarde virtual entre o Brasil, a França e a Holanda. Não sei como, mas acabamos falando sobre equinócios… O que são eles? Qual é o movimento que a Terra faz ao longo do ano? O que acontece durante os equinócios e solstícios?
Não, a gente não é estudante de física… As três, totalmente leigas, chegaram à conclusão, com uma certa ajuda da Wikipedia, de que a duração dos dias e noites muda durante o ano porque a Terra é tortinha. Isso mesmo, tortinha…
Equinócio em latim significa noites iguais e é o momento do ano em que os dias e as noites têm a mesma duração, em ambos os hemisférios. É o equilíbrio da luz do verão e da sombra do inverno, que acontece na primavera e no outono. O equilíbrio dos opostos, em que um dia tem 12 horas de luz e 12 horas de escuridão, em qualquer ponto do globo.
O que me remeteu imediatamente ao símbolo yin-yang dos chineses, que mostra o equilíbrio entre as duas polaridades. Cada uma contendo em si a semente da outra.
Agora, nós do hemisfério sul estamos na metade branca do símbolo (yang), que contém em si o princípio oposto. Ou seja, saímos do verão, luminoso, entramos no outono, em que a luz vai diminuindo progressivamente até chegarmos à escuridão do inverno. E o hemisfério norte, ao contrário, está na metade escura do símbolo (yin), que contém o princípio luminoso. Ele saiu do inverno, passa pela primavera e chega à luz do verão.
Os solstícios (inverno e verão) seriam representados pelos dois pontos, na borda do círculo, em que a escuridão cessa e se torna luz ou vice-versa.
É! Descobri o Brasil!!!
Sem brincadeira… Agora fui procurar na Internet uma imagem pra colocar aqui e achei exatamente um diagrama mostrando como os chineses criaram o símbolo ao fazer a medição da sombra de um bastão ao longo do ano, calculando assim a duração da rotação da Terra em torno do Sol e os solstícios e equinócios… Clique na imagem pra ver a explicação (em inglês).
Só lembrei do que a Camila falou: “se a terra fosse retinha, em vez de tortinha, seria um tédio!” E o símbolo do yin yang provavelmente seria um círculo branco com um círculo preto no centro. Ou o contrário disso.
P.S.: Em breve traduzo a página em inglês aqui, porque vale a pena.
P.S. 2: Engraçado pensar que a conversa com as meninas lá no hemisfério norte aconteceu exatamente nessa época de equilíbrio entre a luz e a sombra, no norte e no sul… ao acaso, sem nenhuma combinação… hehehe





