Arquivo para poesia
a morte
O pescador na lida sabe que a morte
É a água doce quando encontra o sal:
Rico ecossistema, de vida sem igual.
Peixes de dois mundos encontram alimento
E caem na mesma rede, não importa a sorte;
Aceitam sua salobra sina sem lamento:
A água da foz é bênção e maldição.
angico
Fogaréu dentro que não deixa ver o céu…
Na paisagem queimada acre-esfumaçada
Tem um broto. – Sempre tem um broto que teima. – Broto de angico
Com duas folhas memória de cotilédones,
Olha pra mim como se dissesse:
“Olha por mim!”
E na sua frágil companhia
Caminho até o fim do dia
Pela paisagem, desolada,
Procurando corpos
Identificando espécimes
Contando troncos:
Embaúba, guapuruvu, paineira,
aroeira, acácia, jequitibá…
Desenhando com carvão
Na terra abatida, no duro do chão,
Fantasmas de árvores que foram
Ou que poderiam ter sido.
Que só com essa mágoa consigo
Derramar uma lágrima
No sulco da mão
Para regar o pé
do angico que me guarda
água doce
rio profundo de águas negras
(e doces) mistérios da criação
palavras, de pés molhados,
na margem pescam em vão
dele eu bebo; e nele me afogo
em mim só há fogo, ar e sal
a água onde vivo é mar
que do rio vem
e do rio é desigual
é lágrima e suor de amar
nas línguas traduzida:
onda, vaga arrebentação
do som primordial
só entre as palavras,
escondida,
a água doce saliva
nem tudo passarinho
o desespero pousa, demora
ameaça, faz que não passa
pausa, em descompasso
investigo a palavra, a fera:
falta de esperança e de espera
brujería
madrugada, perguntou-me a coruja
se acredito ou não en las brujas.
respondi que não, e tenho dito,
pero que las hay… ai ai!
namorico
rolinha em cima do muro
columbina diz pra pierrô:
- jura que me ama?
- juro! – ele falou
(o amor está no ar…)
e trocam mimos
e catam pulgas
e beijam no bico
e fazem ninho
em seu namorico
de passarinho
***
sério, esses bichinhos se chamam Columbina talpacoti
maritaca
essas danadinhas gostam de uma árvore aqui da rua, que tem vagens enormes. ouvi a algazarra e fui lá fotografar, mas depois da primeira foto elas ouviram os gritos de outras maritacas mais ao longe e saíram em debandada. só saiu essa, escondidinha.
tarde ensolarada,
a maritaca trina
qual uma matraca:
hakuna matata
ave, vida
Às vezes me pego vendo a vida como uma força quase indestrutível, que supera todas as adversidades e consegue vicejar etre rachaduras de asfalto, tubos hospitalares, guerras civis e outras condições difíceis. Mas em outros momentos ela parece muito mais frágil, como uma linhazinha fina amarrada a um balão suspenso no ar, que pode ser rompida por qualquer vento ou galho de árvore.
Hoje um passarinho morreu na minha mão. Com a asa quebrada, a força que havia nele ainda fez algumas tentativas de vôo, mas ele não se sustentava mais nem no ar e nem na terra. Parece que no momento em que percebeu que a vida era inviável, decidiu ir embora… E assim foi. Leve, desprendido, como só os pássaros sabem ser. Foi embora como o vento.
***
vida se esvaindo
tal qual uma ave entre os dedos
pro céu vai-se indo
***
gracias, pequeno…
texto bom
O Pedrim (Pedro Biondi) é um amigão que tem um jeito todo dele de mexer com as palavras. Escreve que dá gosto. Insisti que um post que ele escreveu intitulado “Biocombustível caseiro” era pura poesia. Olha aqui pra ver se você não dá razão pra mim! Recomendo muitíssimo o livro do moço! E o blog. Vai lá!



