andar com o pé eu voo

eloise de vylder

Arquivo para julho, 2008

ave, vida

Às vezes me pego vendo a vida como uma força quase indestrutível, que supera todas as adversidades e consegue vicejar etre rachaduras de asfalto, tubos hospitalares, guerras civis e outras condições difíceis. Mas em outros momentos ela parece muito mais frágil, como uma linhazinha fina amarrada a um balão suspenso no ar, que pode ser rompida por qualquer vento ou galho de árvore.

Hoje um passarinho morreu na minha mão. Com a asa quebrada, a força que havia nele ainda fez algumas tentativas de vôo, mas ele não se sustentava mais nem no ar e nem na terra. Parece que no momento em que percebeu que a vida era inviável, decidiu ir embora… E assim foi. Leve, desprendido, como só os pássaros sabem ser. Foi embora como o vento.

***

vida se esvaindo
tal qual uma ave entre os dedos
pro céu vai-se indo

***

gracias, pequeno…

assombro

Às vezes me assombro com essa coisa de ser humana. Sabe? Dois olhos, um nariz e uma boca no meio da cara… Estruturas estranhas que recebem o nome de braços e pernas. Frio, calor, fome, sede, roupas, carro, fumaça, dinheiro, computador, sangue, choro, vômito, sorriso, abraço, olhar, sistemas de governo, escolas, disciplinas, prêmios, cinema, televisão, moda, anorexia, animais em extinção, desmatamento, água polúida, protocolo de kyoto, reuniões do g8, sustentabilidade, nova era, comunidades, gurus, psicologia, terapia, palavras, nomes, conceitos.

Mas sobretudo me espanto com olhos, nariz e boca.

Com dedos nas mãos e nos pés.

Mas aí encontro uma pessoa, e mais outra… E ninguém parece se perguntar.

Então me esqueço disso tudo por algum tempo.

Até me assombrar de novo.

beija-flor

Quando meu irmão e eu éramos crianças e meus pais tinham uma casa em Monte Verde, um dos nossos passatempos favoritos nas férias no campo era brincar de poleiro de beija-flor. Isso mesmo! Hoje sei que não é muito legal para essas aves aquela tal agüinha com açúcar que a gente colocava na garrafinha florida usada pra atrair os bichinhos. Mas na época, não fazia a mínima idéia.

Gostava mesmo de ficar olhando as cores, os bicos, as penas de todas as variedades de beija-flor que viviam por lá. E dávamos nomes pra eles… o Tonico, o Marronzinho, a Marronzinha, o Verdinho, o Mascarado, o Pica-Pau, o Bico Vermelho…

Lá pro comecinho da manhã e no fim da tarde eles vinham às dezenas. Era uma algazarra de beija-flores disputando as seis florzinhas de água com açúcar que tínhamos no jardim de casa. E era nessas horas que a gente mais curtia brincar de poleiro, o que significava, basicamente, ficar com os dois indicadores sob as florzinhas da garrafa, esperando que os beija-flores pousassem na nossa mão para beber.

A princípio eles ficavam meio desconfiados, mas depois não se importavam muito. O segredo era ficar imóvel mesmo, quase que sem piscar. No frenesi da última refeição do dia (ou talvez do vício pelo açúçar?), eles olhavam pras nossas caras de estátua, onde só os olhos se moviam, e não hesitavam.

Pousavam nos nossos dedos com aquelas garrinhas leves que até faziam cócegas. Voavam em torno de nós, examinavam bem os nossos rostos, e voltavam para as garrafinhas, na maior confiança. Ficávamos horas ali parados, conversando como ventríloquos para não espantar os bichinhos. Às vezes fazia um frio danado e a gente continuava lá fora, no meio da neblina, de gorro, cachecol e dedinhos congelando.

Hoje, vez em quando, eu sonho que um beija-flor pousa no meu dedo.

bem-te-vi

As aves que vivem na cidade são tão lugar comum que sua existência passa quase despercebida. Mas hoje um bem-te-vi pousou na sacada de casa quando eu estava chegando de carro. E foi então que me dei conta de como admiro esses pássaros.

Eles tem uma imponência, uma certa soberania, e ao mesmo tempo são de uma simplicidade crua, de apenas três cores e três sílabas. Acho que o que mais admiro nos bem-te-vis é uma espécie de força selvagem, penetrante. Não, eles não têm a sutileza das andorinhas. E tampouco são estabanados como o sabiá ou barulhentos como maritacas. Embora se façam notar por seu canto agudo do alto dos fios de luz, na maior parte do tempo os bem-te-vis são apenas uma presença colorida, silenciosa e atenta. Acho que o nome bem-te-vi não é só uma rima para o canto, mas também uma expressão da natureza observadora dessas aves.

E é nesses momentos que é mais bonito de vê-los: um bem-te-vi parado, quieto, sentado no corrimão da sacada, atento, olhando a rua. E são esses os momentos pelos quais eu mais gosto de viver. O momento em que uma ave observa e se deixa observar. Observador e observado, ambos conscientes da presença alheia.

Os dois bem-se-vendo.