andar com o pé eu voo

eloise de vylder

Arquivo para dezembro, 2008

que venha o pior!

Faz tempo que não escrevo nada, mas vou deixar as explicações pra depois. Acabei de assistir ao Café Filosófico e de fato foi muita cafeína mental pra essa hora da madrugada.

Muito interessante. Fez questionar toda essa apologia de uma nova consciência capaz de “salvar o planeta” da “catástrofe ambiental”.

O filósofo Alexandre Mendonça explicou que isso não passa de uma outra forma do racionalismo orientado para o progresso, que sempre se volta para o desejo de um futuro melhor por não saber lidar com o presente e com a morte, que é parte da vida. O racionalismo parte de uma afetividade negativa em relação à vida, que condena a natureza humana como algo passível de ser corrigido pela razão.

Já o pensamento trágico (vem das tragédias gregas) parte de uma afetividade positiva, que vê e aceita a morte como parte da vida, e por isso abraça a vida tal como ela é.

A idéia é que não é possível uma mudança de consciência se não houver uma mudança de afetividade. Movido pela culpa e pelo ressentimento, o racionalismo sempre se engajará num projeto capaz de criar um futuro melhor e continuar negando a vida no presente.

E esses projetos baseados na negação da vida, que enaltecem um domínio ilusório do homem sobre o acaso e sobre a natureza, são obviamente incapazes de controlar a realidade.

Para cada invenção do progresso humano, há sempre uma catástrofe proporcional ao benefício que ela oferece. Quando o homem inventou a bicicleta, ele também inventou o tombo de bicicleta. Quando inventou o carro, o acidente de carro. O avião, o acidente de avião. E assim por diante, até a energia nuclear. Quanto mais próximo do céu ele tentou chegar, mais as catástrofes o levaram ao inferno.

Segundo ele, o desafio não está em tentar descobrir onde a racionalidade errou, mas simplesmente admitir que a própria racionalidade é falha. Que a vida é muito maior do que ela.

O homem não está verdadeiramente preocupado em “salvar o planeta”, mas sim em lutar contra a sua própria finitude, em salvar a si mesmo. A vida, com ou sem seres humanos, continua. Formas de vida se extinguem para dar origem a outras formas. A única coisa que se sabe é que nada é permanente.

Nessa linha de raciocínio, ele disse que a afetividade positiva do pensamento trágico deseja e espera “pelo pior”. O pior, nesse sentido, é o próprio acaso.

É como quando num momento de alegria, desejamos viver a vida toda de novo, exatamente da mesma forma, com todas as suas tragédias, porque, enfim, está é a vida.

A idéia da catástrofe, por outro lado, infunde mais culpa e ressentimento no homem, que deseja “consertar” sua natureza, almejando um projeto de futuro melhor, controlado por ele, por meio da racionalidade. Isso esvazia o ser humano de sua própria potência, porque nega sua natureza.

Por outro lado, desejar o “pior” parte de uma afetividade positiva que integra todos os aspectos do ser humano e o fortalece.

Os filósofos de plantão que me perdoem pela simplificação. Talvez eu tenha atropelado os conceitos, mas essa foi a forma como eu entendi. E, filosofês ou não, isso fez sentido pra mim.

Porque ficar me sentindo culpada por andar de carro ou por consumir lâmpadas econômicas tóxicas que não podem ser recicladas não faz muito bem pra minha saúde, não…

Se em vez dessa militância baseada na afetividade negativa, na crença de que nosso projeto deu errado e que precisamos nos esforçar para “salvar o planeta”, a gente esforçasse mais para ser feliz nesse momento, abraçando a vida tal como ela é – riso e dor e morte e acaso-, acho que o contentamento e a alegria decorrentes seriam muito mais benéficos para o ambiente ao nosso redor do que uma lâmpada fluorescente.

Até porque quando inventamos a lâmpada, também inventamos a queda da lâmpada.

E se o pior é a vida – com lâmpadas que quebram, brisas e tempestades, sol e chuva, nascimento e morte -, que venha o pior!

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