andar com o pé eu voo

eloise de vylder

Arquivo para janeiro, 2009

alguns segundos de uma tarde de quinta-feira

Meio macambúzia, no quintal, como se contasse pingos, olho para a chuva miúda que cai quase ininterrupta há quatro dias quando um beija-flor de rabo branco corta o espaço em direção à flor vermelho-vivo do hibisco. O olhar se ilumina e acompanha o bater de asas e o bico que sorve o néctar demoradamente. Com graça ele deixa a flor e pousa sobre o fio do varal, tirando a língua para fora repetidas vezes, num delicado lamber de beiços. Na cara até então fechada, o canto dos lábios esboça um leve movimento ascendente. A ave limpa as asas, com gestos precisos de fechar e abrir, talvez sacudindo uma gota d’água da qual não soube se esquivar. Olha para o lado, hesita. Investiga meu olhar e o resto do mundo ao redor. Mas logo voa, com aquele tipo de delicadeza que não faz distinção entre movimento e repouso.  Inesperada, uma exclamação silenciosa dura o intervalo entre a sístole e a diástole: Ele vem em minha direção!

Mas, aaah… Nada disso… Apenas mata a curiosidade em relação aos prendedores de roupa coloridos e parte novamente em direção às flores de hibisco. Confunde-se com a folhagem, deixando o meu campo de visão. No rosto, o sorriso ainda pousa largo.

beijaflorrabobranco

(peguei essa foto – excepcional – na internet há algum tempo e peço perdão ao autor se não consigo encontrar mais o endereço do site para dar o devido crédito.)

instantâneo em dó menor

na mão do menino, o peixe dourado se agita numa porção de água cercada de plástico por todos os lados – assombrado por visões distorcidas de um oceano de ar.

goldfish1

elementar

descobri que só lá fora eu vivo, sem teto nem parede. viver é pele: sob o sol, contra o vento, debaixo de chuva, sobre a grama… o resto é morte lenta e civilizada.

frente fria bem organizada

nuvens avançando como bandos de aves migratórias, em geometrias impecáveis que revelam as estruturas de átomos e moléculas;

o vapor que antes de se tornar água descreve um redemoinho coreografado qual concha de nautilus;

a proporção áurea guardada no espaço entre um pingo de chuva e outro;

raios desenhando no céu segmentos de parábolas que revelam as equações por trás de toda a criação.

e o som do trovão…  propagado em ondas tão regulares que podem ser usadas para calcular a distância entre os homens, ou entre eles e o céu.

raio

receita de alegria de quintal ou como lavar um tapete de quatro metros quadrados

ingredientes:

– sol a pino
– roupa mínima
– um tapete sujo estendido no chão de cimento
– mangueira aberta sobre o tapete
– sabão em pó
– vassoura
– reggae no máximo (ou música contagiante de sua preferência)

modo de preparo:

posicione-se confortavelmente em pé sobre o tapete. abra a torneira e molhe toda a extensão do mesmo, certificando-se de molhar seu próprio corpo um pouco ao acaso, enquanto finge manter um ar de martírio de quem lava um tapete sob o sol escaldante. espalhe o sabão em pó com a vassoura até fazer uma boa espuma, o suficiente para que os pelos do tapete fiquem escorregadios. ligue o som no máximo, deixe a água correr sobre seus pés enquanto você esfrega, vassoura em punho.

não demorará para que uma alegria sorrateira o invada e você comece a dançar involuntariamente sobre o tapete ensaboado. depois de instalada a alegria, sob pretexto de enxaguar o tapete, leve a mangueira para o alto de sua cabeça e deixe a água escorrer pelo corpo enquanto finge que tenta tirar a espuma do tapete com os pés.

tudo indica que é melhor fazer isso sem ninguém observando, para que a alegria seja genuína. mas no caso de um tapete com mais de 4 metros quadrados, é interessante compartilhar o método com um ajudante.

receita de alegria de quintal ou como recolher as roupas do varal durante um toró de verão

ingredientes:

– toró de verão (de preferência com granizo)
– roupas no varal ou outro motivo válido para sair lá fora
– versos decorados da música “sonho molhado”, do gil
– um espelho
– roupas secas para vestir

modo de preparo

contrariando seus instintos de cuidados domésticos, deixe suas roupas no varal enquanto os raios e trovões anunciam o temporal. ignore todos os sinais do toró até que comecem a cair as primeiras gotas gordas de chuva. só então saia no quintal, sem guarda-chuva nem lenço cobrindo a cabeça,  e comece a recolher peça por peça com tranquilidade, como se não caísse água do céu. finja para si mesmo que não está chovendo.

para espantar o medo de se molhar, olhe de frente a nuvem negra que se derrama, com olhos curiosos de quem nunca viu nuvem, continue fingindo que não chove. recolha quase todas as roupas, deixando apenas uma peça ou duas no varal, obrigando-se a vazer mais uma viagem. coloque as roupas recolhidas dentro de casa e, no caminho de volta, perceba como você já está encharcado e não adianta mais se esconder da chuva. verifique como as duas peças que você deixou no varal também estão ensopadas. admita para si mesmo que está chovendo e comece a cantarolar as duas primeiras estrofes da música do Gil:

“Faz muito tempo que eu não tomo chuva
Faz muito tempo que eu não sei o que é me deixar molhar
Bem molhadinho, molhadinho de chuva
Faz muito tempo que eu não sei o que é pegar um toró

De estar na chuva quando a chuva cair
De não correr pra me abrigar, me cobrir
De ser assim uma limpeza total
De tá na rua e ser um banho
Na rua
Um banho…”

seguindo todos esses passos, e repetindo os versos vezes suficientes, não demorará para que uma alegria sorrateira o invada e você comece a dançar involuntariamente.

depois de sentir a “limpeza tótal” da música com uma exclamação interior genuína, entre em casa, pingando, sem se preocupar em não molhar o chão. vá até o espelho mais próximo e olhe bem para o seu próprio rosto. poderá então constatar um certo ar de molecagem na pele lavada e o brotar de um largo sorriso.

olhe-se até ficar satisfeito e só então torça suas roupas, tome um banho frio e vista roupas secas. perceba no corpo uma vaga sensação de “depois”… depois de cachoeira, depois de sexo bom, de caminhada longa na mata, de banho frio na represa… o ser inteiro transformado em pele e um leve cansaço que beira a nostalgia e a incapacidade de completar orações.

dia de chuva

Dia sim dia não é dia de por o lixo pra fora. Na calçada molhada de chuva, sacolas plásticas se amontoam atraindo catadores que não deixam latas para os cães virarem. Jogo um tanto de sabão em pó de erva-doce na máquina de lavar que tem a minha idade na esperança de afastar a idéia de pessoas com vida de cão. Respiro com avidez o cheiro da chuva do interior, com narinas largas de engolir, em busca de um mormaço que me lembre o mar.

Saio, pedalo. Porque nesses dias o bom é pedalar, imaginando todo um oceano a um quarteirão da avenida do supermercado, areias pontilhadas de gotas de chuva atrás da caixa d’água, ou as ondas quebrando na baixada no fim da rua, onde um centimetrozinho de horizonte lembra um caminho que dá na praia. E alguma estranha alquimia entre o brilho do sol nas poças d’água, o cheiro do asfalto molhado e as folhas de sombreiro caídas na sarjeta traz o mar para tão perto, mas tão perto, que chego a ouvir um marulhar crescente, virando aquela esquina talvez… Ou a próxima… Pedalo a esmo perseguindo essa sensação.

Volto e estendo os lençóis ao menor sinal de céu azul entre as nuvens, sacudindo os sonhos da noite anterior. Cientes da presença do mar por aqui, criaturas marinhas me visitam enquanto durmo: peixes-morcego, manatis, arraias…  Golfinhos também, vez em quando. Também aparecem criaturas que não moram lá nem cá: um pássaro-baleia amarelo-dourado, um peixe azul gigante voador… Não sei o que é que eles me sussurram durante os sonhos, não sei de que velha morada eles me trazem notícias, só sei que nesses dias acordo com mais saudades de deus.

E nesses dias chuvosos em que é quase possível tocar a água salgada do oceano, em que a promessa do encontro fica impregnada na umidade do ar, a saudade é de um pontiagudo tão brilhante que me deixa sem palavra nem pensamento, só com os poros abertos e os sentidos escancarados para o que vier.