andar com o pé eu voo

eloise de vylder

Arquivo para alegrias de quintal

alguns segundos de uma tarde de quinta-feira

Meio macambúzia, no quintal, como se contasse pingos, olho para a chuva miúda que cai quase ininterrupta há quatro dias quando um beija-flor de rabo branco corta o espaço em direção à flor vermelho-vivo do hibisco. O olhar se ilumina e acompanha o bater de asas e o bico que sorve o néctar demoradamente. Com graça ele deixa a flor e pousa sobre o fio do varal, tirando a língua para fora repetidas vezes, num delicado lamber de beiços. Na cara até então fechada, o canto dos lábios esboça um leve movimento ascendente. A ave limpa as asas, com gestos precisos de fechar e abrir, talvez sacudindo uma gota d’água da qual não soube se esquivar. Olha para o lado, hesita. Investiga meu olhar e o resto do mundo ao redor. Mas logo voa, com aquele tipo de delicadeza que não faz distinção entre movimento e repouso.  Inesperada, uma exclamação silenciosa dura o intervalo entre a sístole e a diástole: Ele vem em minha direção!

Mas, aaah… Nada disso… Apenas mata a curiosidade em relação aos prendedores de roupa coloridos e parte novamente em direção às flores de hibisco. Confunde-se com a folhagem, deixando o meu campo de visão. No rosto, o sorriso ainda pousa largo.

beijaflorrabobranco

(peguei essa foto – excepcional – na internet há algum tempo e peço perdão ao autor se não consigo encontrar mais o endereço do site para dar o devido crédito.)

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receita de alegria de quintal ou como lavar um tapete de quatro metros quadrados

ingredientes:

– sol a pino
– roupa mínima
– um tapete sujo estendido no chão de cimento
– mangueira aberta sobre o tapete
– sabão em pó
– vassoura
– reggae no máximo (ou música contagiante de sua preferência)

modo de preparo:

posicione-se confortavelmente em pé sobre o tapete. abra a torneira e molhe toda a extensão do mesmo, certificando-se de molhar seu próprio corpo um pouco ao acaso, enquanto finge manter um ar de martírio de quem lava um tapete sob o sol escaldante. espalhe o sabão em pó com a vassoura até fazer uma boa espuma, o suficiente para que os pelos do tapete fiquem escorregadios. ligue o som no máximo, deixe a água correr sobre seus pés enquanto você esfrega, vassoura em punho.

não demorará para que uma alegria sorrateira o invada e você comece a dançar involuntariamente sobre o tapete ensaboado. depois de instalada a alegria, sob pretexto de enxaguar o tapete, leve a mangueira para o alto de sua cabeça e deixe a água escorrer pelo corpo enquanto finge que tenta tirar a espuma do tapete com os pés.

tudo indica que é melhor fazer isso sem ninguém observando, para que a alegria seja genuína. mas no caso de um tapete com mais de 4 metros quadrados, é interessante compartilhar o método com um ajudante.

receita de alegria de quintal ou como recolher as roupas do varal durante um toró de verão

ingredientes:

– toró de verão (de preferência com granizo)
– roupas no varal ou outro motivo válido para sair lá fora
– versos decorados da música “sonho molhado”, do gil
– um espelho
– roupas secas para vestir

modo de preparo

contrariando seus instintos de cuidados domésticos, deixe suas roupas no varal enquanto os raios e trovões anunciam o temporal. ignore todos os sinais do toró até que comecem a cair as primeiras gotas gordas de chuva. só então saia no quintal, sem guarda-chuva nem lenço cobrindo a cabeça,  e comece a recolher peça por peça com tranquilidade, como se não caísse água do céu. finja para si mesmo que não está chovendo.

para espantar o medo de se molhar, olhe de frente a nuvem negra que se derrama, com olhos curiosos de quem nunca viu nuvem, continue fingindo que não chove. recolha quase todas as roupas, deixando apenas uma peça ou duas no varal, obrigando-se a vazer mais uma viagem. coloque as roupas recolhidas dentro de casa e, no caminho de volta, perceba como você já está encharcado e não adianta mais se esconder da chuva. verifique como as duas peças que você deixou no varal também estão ensopadas. admita para si mesmo que está chovendo e comece a cantarolar as duas primeiras estrofes da música do Gil:

“Faz muito tempo que eu não tomo chuva
Faz muito tempo que eu não sei o que é me deixar molhar
Bem molhadinho, molhadinho de chuva
Faz muito tempo que eu não sei o que é pegar um toró

De estar na chuva quando a chuva cair
De não correr pra me abrigar, me cobrir
De ser assim uma limpeza total
De tá na rua e ser um banho
Na rua
Um banho…”

seguindo todos esses passos, e repetindo os versos vezes suficientes, não demorará para que uma alegria sorrateira o invada e você comece a dançar involuntariamente.

depois de sentir a “limpeza tótal” da música com uma exclamação interior genuína, entre em casa, pingando, sem se preocupar em não molhar o chão. vá até o espelho mais próximo e olhe bem para o seu próprio rosto. poderá então constatar um certo ar de molecagem na pele lavada e o brotar de um largo sorriso.

olhe-se até ficar satisfeito e só então torça suas roupas, tome um banho frio e vista roupas secas. perceba no corpo uma vaga sensação de “depois”… depois de cachoeira, depois de sexo bom, de caminhada longa na mata, de banho frio na represa… o ser inteiro transformado em pele e um leve cansaço que beira a nostalgia e a incapacidade de completar orações.