andar com o pé eu voo

eloise de vylder

Arquivo para experiência pessoal

elementar

descobri que só lá fora eu vivo, sem teto nem parede. viver é pele: sob o sol, contra o vento, debaixo de chuva, sobre a grama… o resto é morte lenta e civilizada.

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oração

Quando eu era pequena me ensinaram o Pai-Nosso, mas como era longo demais e eu não tinha a mínima idéia do que significava -era quase como cantar o hino nacional na escola, coisa que ainda existia lá pelos idos dos anos 80 na EEPG Prof. Antonio de Campos Gonçalves-, optava sempre por um singelo e veloz “Jesus-menino-meu-irmãozinho-faça-que-eu-seja-bem-boazinha”. Que na minha pressa infantil acabava soando como “o rato roeu a roupa do rei de Roma”. Basicamente um trava-língua.

Óbvio que essa relação com Jesus menino não durou muito. Difícil imaginar que, adolescente, vestida de preto e ouvindo Black Sabbath, eu ainda me importasse em ser boazinha. Aliás, que coisa infeliz essa história de ser “boazinha”. Passei por uma fase de centro espírita na pré-adolescência, mas lá pelos 14 anos eu já tinha cortado relações com Deus, anjos, santos, espíritos de luz e o diabo a quatro. E de fato, durante muito tempo eu não rezei, não orei, não disse nenhuma precezinha, nem pulei pra São Longuinho. E olha que eu perdia de tudo!

Com uma pitada de niilismo fin-de-siecle universitário, estava fundado o ateísmo de carteirinha. Deus era para os fracos. Nem ousasse falar dele na minha frente que eu tinha engulhos e pulava no pescoço desavisado.

Durante anos eu encontrei algum conforto na ciência herdada das apostilas de cursinho aliada a um pouco de imaginação. Não era exatamente uma cosmogênese, mas valia. Ficou conhecida pelos meus amigos todos, coitados, como a “teoria dos elétrons da última camada”, que entre outras coisas explicava a possibilidade de captar as vibrações de pensamentos alheios por ressonância dos campos eletromagnéticos formados a partir das correntes elétricas geradas pelo quantum de energia liberado pelos elétrons da última camada dos átomos que reagiam na complicada química dos neurotransmissores do nosso cérebro. Deu pra entender?

Poizé… Tem gente que simplifica e chama esses mistérios todos de Deus.

Mas enfim… Minha solução religiosa também não me ajudava em nada na hora da oração. Difícil rezar num altar com um nome desses. Vai dizer o quê? Bem-aventuradas as ligações covalentes, livrai-nos da catálise, amém?

Na verdade, eu não me preocupava muito com isso. O mais perto que eu chegava de alguma espiritualidade ou autoconhecimento era assistir “2001- Uma Odisséia no Espaço” e visitar uma aluna de psicologia na clínica gratuita da USP uma vez por semana. Ah, teve também umas expansõezinhas de consciência fruto de uma certa inconsciência… Mas juro que não traguei! (Só para o caso de minha mãe estar lendo esse texto.)

O resto é a velha história… Maconha, cocaína, crack, prostituição…

Brincadeira… Mas como uma coisa leva a outra, logo estava lendo as peripécias do Thimothy Leary, que falava sobre o Livro Tibetano dos Mortos y otras cositas mas. Logo substituí os elétrons do meu altar pelo lisérgico “Submarino Amarelo”, com os Beatles em versão desenho animado lutando contra os malvados azuis pra devolver a música à cinzenta cidade de Pepperland. Se você não assistiu, recomendo! (Ainda essa semana estava ouvindo de novo “All You Need Is Love”… lá lá lá lá lá… come together, everbody!)

Viajei (dessa vez literalmente) três anos com um submarino amarelo debaixo do braço, na cabeceira da cama e no repeat do disquinho mental. Será que dá pra considerar isso uma rezinha?

Nessas alturas eu já tinha comprado um tarô zen do Osho, e daí pra cair no budismo foi um passo. Tá virando budista? – perguntaram. Eu? Não! Só acho interessante porque é muito lógico etc etc etc. Ainda não dava o braço a torcer. (Quem diria que mais tarde eu passaria meses cantando Hare Krishna e dançando na frente de um deus azul!)

Mas eu não rezava. Juro que não. Meu interesse era muito mais intelectual e também pela meditação. Eu dizia uns mantras que eu não tinha idéia do que significavam, alguns que eu sabia o significado e uma ou outra oração… Sim, orações, mas não acho que eu rezava, não. Eu repetia o que táva escrito lá no livrinho… O rato roeu a roupa do rei de Roma… Não tinha muita conexão envolvida nisso.

Tempo passa, tempo voa… Depois de uns quatro anos fuçando aqui e ali, umas tantas linhas espirituais e religiões diferentes, acho que finalmente estou começando a pescar essa coisa da oração.

Resumindo de um jeito bem simples, pra quem acredita ou não que haja qualquer coisa além do que percebem os nossos cinco sentidos, ando sentindo a coisa mais ou menos assim:

Que a gente é feito da mesma substância que forma todo esse mundão véio sem porteira. Átomos, elétrons, coisas menores ainda que a gente não estudou para o vestibular, e que nem os cientistas descobriram… Partículas minúsculas, impensáveis, que se sucedem indefinidamente da mesma maneira que a imensidão de galáxias além de galáxias. Estrelas que nascem e que morrem. Seres incontáveis, conhecidos e inimagináveis… Matéria… Luz… O infinito inconcebível.

Passado o susto e a impressão de que somos seres tão insignificantes no meio de um grande caos, dá pra começar a perceber os padrões que se repetem no macro e no micro, a geometria das folhas na mata, do átomo e dos planetas, a espiral do DNA, da galáxia e das conchas na praia, a simetria das frutas, o ritmo das ondas, o pulsar da seiva das plantas, do sangue nas veias, o olhar das pessoas e dos animais, o ir e vir do ar dentro de nós, a batida do nosso coração. E de repente a gente não enxerga mais o caos e sim uma ordem perfeita, da qual fazemos parte e que faz parte de nós, sem separação.

Deus, como isso é bom! ;-)

E daí única oração possível é o agradecimento.

Acho que foi isso que eu percebi… Que apesar dos pesares, literalmente, é possível levar a nossa consciência para um outro ponto. Um ponto onde é possível reconhecer a beleza de tudo ao redor, a dádiva de existir e poder partilhar desse mistério.

Foi então que eu entendi que a oração pode nos levar pra esse lugar. Que ela é como uma passagem de ônibus. E tudo o que a gente precisa dizer para o motorista é um simples obrigado pra começar a viagem.

A oração não precisa ser nenhum muro de lamentos, nenhum confessionário de culpas, nenhum deus-nos-acuda. Mesmo que a gente esteja num momento difícil, sem vontade de agradecer por nada, é possível usar a gratidão como palavra-chave pra elevar a consciência pra um lugar melhorzinho. Basta um “eu agradeço por…” para começar a encontrar os motivos pelos quais vale a pena estar vivo.

Depois de uns minutinhos agradecendo, nosso estado de espírito já é outro. E quanto mais a gente consegue entrar nessa vibração de gratidão, mais a gente tem motivo para agradecer.

Tá bom… Encontrei Jesus!

;-)

Feel allright now
Lord, I thank you!

(já diria Bob Marley)

***

Lembrei de algumas coisas enquanto escrevia o texto:

– do monólogo final do filme “Beleza Americana”:

“There’s so much beauty in the world. Sometimes I feel like I’m seeing it all at once, and it’s too much, my heart fills up like a ballon that’s about to burst… And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can’t feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life…”

– e de um trecho do livro “Cartas do Caminho Sagrado”, da Jamie Sams, sobre a abundância:

“Sempre que os Nativos Americanos necessitam obter um instrumento para realizar algo, ou precisam recorrer aos serviços de algum especialista, eles costumam agradecer ao Campo da Fartura, antes mesmo que a pessoa ou objeto se manifeste na prática. O Campo da Fartura sempre encontra um jeito de colocar o objeto desejado nas mãos daquele que realmente necessita dele. A chave para conseguir que todas as coisas necessárias se manifestem consiste em desenvolver um profundo sentimento de gratidão, aliado à total sinceridade e à ação correta em nossa vida física.”

coruja

Saí na varanda do escritório aqui em casa e, parada sobre a caixa d’água da casa do vizinho, estava essa coruja olhando na minha direção. Dei aquele gritinho de “olha, uma coruja!” e ela quase voou de susto, mas eu recuei e ela desistiu da idéia. Fiquei apertando meus olhos míopes durante um tempão, tentado observá-la melhor, enquanto ela continuava por ali, respondendo aos gritos de outra coruja mais ao longe. Trocamos uns “uuuu uuuu uuuu” e pedi educadamente pra que ela não saísse do lugar até que eu pegasse a máquina fotográfica.

Desci e subi duas vezes até encontrar a máquina e quando voltei ela ainda estava paradinha na caixa d’água do vizinho… Tirei uma foto. Na segunda já peguei ela armando o vôo. E não é que a danadinha veio parar mais perto de mim ainda? Talvez a uns dez metros de distância. Bem em frente ao telhado que dá pros fundos aqui de casa… Pena que já estava escurecendo e as únicas fotos que ficaram mais ou menos boas foram as com flash, que deixaram os olhos dela brilhando. Mas valeu…

Pra essa última, precisei usar o meu melhor corujês pra que ela olhasse para a câmera. Funcionou… ;-)

assombro

Às vezes me assombro com essa coisa de ser humana. Sabe? Dois olhos, um nariz e uma boca no meio da cara… Estruturas estranhas que recebem o nome de braços e pernas. Frio, calor, fome, sede, roupas, carro, fumaça, dinheiro, computador, sangue, choro, vômito, sorriso, abraço, olhar, sistemas de governo, escolas, disciplinas, prêmios, cinema, televisão, moda, anorexia, animais em extinção, desmatamento, água polúida, protocolo de kyoto, reuniões do g8, sustentabilidade, nova era, comunidades, gurus, psicologia, terapia, palavras, nomes, conceitos.

Mas sobretudo me espanto com olhos, nariz e boca.

Com dedos nas mãos e nos pés.

Mas aí encontro uma pessoa, e mais outra… E ninguém parece se perguntar.

Então me esqueço disso tudo por algum tempo.

Até me assombrar de novo.

beija-flor

Quando meu irmão e eu éramos crianças e meus pais tinham uma casa em Monte Verde, um dos nossos passatempos favoritos nas férias no campo era brincar de poleiro de beija-flor. Isso mesmo! Hoje sei que não é muito legal para essas aves aquela tal agüinha com açúcar que a gente colocava na garrafinha florida usada pra atrair os bichinhos. Mas na época, não fazia a mínima idéia.

Gostava mesmo de ficar olhando as cores, os bicos, as penas de todas as variedades de beija-flor que viviam por lá. E dávamos nomes pra eles… o Tonico, o Marronzinho, a Marronzinha, o Verdinho, o Mascarado, o Pica-Pau, o Bico Vermelho…

Lá pro comecinho da manhã e no fim da tarde eles vinham às dezenas. Era uma algazarra de beija-flores disputando as seis florzinhas de água com açúcar que tínhamos no jardim de casa. E era nessas horas que a gente mais curtia brincar de poleiro, o que significava, basicamente, ficar com os dois indicadores sob as florzinhas da garrafa, esperando que os beija-flores pousassem na nossa mão para beber.

A princípio eles ficavam meio desconfiados, mas depois não se importavam muito. O segredo era ficar imóvel mesmo, quase que sem piscar. No frenesi da última refeição do dia (ou talvez do vício pelo açúçar?), eles olhavam pras nossas caras de estátua, onde só os olhos se moviam, e não hesitavam.

Pousavam nos nossos dedos com aquelas garrinhas leves que até faziam cócegas. Voavam em torno de nós, examinavam bem os nossos rostos, e voltavam para as garrafinhas, na maior confiança. Ficávamos horas ali parados, conversando como ventríloquos para não espantar os bichinhos. Às vezes fazia um frio danado e a gente continuava lá fora, no meio da neblina, de gorro, cachecol e dedinhos congelando.

Hoje, vez em quando, eu sonho que um beija-flor pousa no meu dedo.

bem-te-vi

As aves que vivem na cidade são tão lugar comum que sua existência passa quase despercebida. Mas hoje um bem-te-vi pousou na sacada de casa quando eu estava chegando de carro. E foi então que me dei conta de como admiro esses pássaros.

Eles tem uma imponência, uma certa soberania, e ao mesmo tempo são de uma simplicidade crua, de apenas três cores e três sílabas. Acho que o que mais admiro nos bem-te-vis é uma espécie de força selvagem, penetrante. Não, eles não têm a sutileza das andorinhas. E tampouco são estabanados como o sabiá ou barulhentos como maritacas. Embora se façam notar por seu canto agudo do alto dos fios de luz, na maior parte do tempo os bem-te-vis são apenas uma presença colorida, silenciosa e atenta. Acho que o nome bem-te-vi não é só uma rima para o canto, mas também uma expressão da natureza observadora dessas aves.

E é nesses momentos que é mais bonito de vê-los: um bem-te-vi parado, quieto, sentado no corrimão da sacada, atento, olhando a rua. E são esses os momentos pelos quais eu mais gosto de viver. O momento em que uma ave observa e se deixa observar. Observador e observado, ambos conscientes da presença alheia.

Os dois bem-se-vendo.

admirável mundo novo

Final de domingão, dia de ver irmão, cunhada e sobrinha.

Parece que depois de ver a nenê, que já não é mais tão nenê assim com seus 10 meses, a gente sai com a alma cheirando a lavanda. Criança é um barato. Ela está numa fase muito bacana de explorar tudo ao redor. Uma coragem inocente. Sem nenhuma noção de perigo, sai desbravando o mundo de gatinhas e macacão. É muito bonito de ver! Merece umas palavrinhas…

atravessa a cozinha engatinhando
à velocidade da luz
ontem mesmo estava mamando
hoje só quer papinha
já tem três cachinhos no cabelo fino
e balbucia palavras que só ela entende
danada da menininha
se diverte subindo e descendo um degrau
e bate palminhas sorridente
de colo já não quer saber
não, seu negócio é o chão
ensaia um passo aqui, leva um tombo acolá
abre o berro e, olha só: dois dentes!
mas logo volta à tarefa de descobrir o mundo
incansável, se arrasta de macacão

o universo na palma da mão