andar com o pé eu voo

eloise de vylder

Arquivo para natureza

a morte

O pescador na lida sabe que a morte
É a água doce quando encontra o sal:
Rico ecossistema, de vida sem igual.
Peixes de dois mundos encontram alimento
E caem na mesma rede, não importa a sorte;
Aceitam sua salobra sina sem lamento:
A água da foz é bênção e maldição.

alguns segundos de uma tarde de quinta-feira

Meio macambúzia, no quintal, como se contasse pingos, olho para a chuva miúda que cai quase ininterrupta há quatro dias quando um beija-flor de rabo branco corta o espaço em direção à flor vermelho-vivo do hibisco. O olhar se ilumina e acompanha o bater de asas e o bico que sorve o néctar demoradamente. Com graça ele deixa a flor e pousa sobre o fio do varal, tirando a língua para fora repetidas vezes, num delicado lamber de beiços. Na cara até então fechada, o canto dos lábios esboça um leve movimento ascendente. A ave limpa as asas, com gestos precisos de fechar e abrir, talvez sacudindo uma gota d’água da qual não soube se esquivar. Olha para o lado, hesita. Investiga meu olhar e o resto do mundo ao redor. Mas logo voa, com aquele tipo de delicadeza que não faz distinção entre movimento e repouso.  Inesperada, uma exclamação silenciosa dura o intervalo entre a sístole e a diástole: Ele vem em minha direção!

Mas, aaah… Nada disso… Apenas mata a curiosidade em relação aos prendedores de roupa coloridos e parte novamente em direção às flores de hibisco. Confunde-se com a folhagem, deixando o meu campo de visão. No rosto, o sorriso ainda pousa largo.

beijaflorrabobranco

(peguei essa foto – excepcional – na internet há algum tempo e peço perdão ao autor se não consigo encontrar mais o endereço do site para dar o devido crédito.)

frente fria bem organizada

nuvens avançando como bandos de aves migratórias, em geometrias impecáveis que revelam as estruturas de átomos e moléculas;

o vapor que antes de se tornar água descreve um redemoinho coreografado qual concha de nautilus;

a proporção áurea guardada no espaço entre um pingo de chuva e outro;

raios desenhando no céu segmentos de parábolas que revelam as equações por trás de toda a criação.

e o som do trovão…  propagado em ondas tão regulares que podem ser usadas para calcular a distância entre os homens, ou entre eles e o céu.

raio

que venha o pior!

Faz tempo que não escrevo nada, mas vou deixar as explicações pra depois. Acabei de assistir ao Café Filosófico e de fato foi muita cafeína mental pra essa hora da madrugada.

Muito interessante. Fez questionar toda essa apologia de uma nova consciência capaz de “salvar o planeta” da “catástrofe ambiental”.

O filósofo Alexandre Mendonça explicou que isso não passa de uma outra forma do racionalismo orientado para o progresso, que sempre se volta para o desejo de um futuro melhor por não saber lidar com o presente e com a morte, que é parte da vida. O racionalismo parte de uma afetividade negativa em relação à vida, que condena a natureza humana como algo passível de ser corrigido pela razão.

Já o pensamento trágico (vem das tragédias gregas) parte de uma afetividade positiva, que vê e aceita a morte como parte da vida, e por isso abraça a vida tal como ela é.

A idéia é que não é possível uma mudança de consciência se não houver uma mudança de afetividade. Movido pela culpa e pelo ressentimento, o racionalismo sempre se engajará num projeto capaz de criar um futuro melhor e continuar negando a vida no presente.

E esses projetos baseados na negação da vida, que enaltecem um domínio ilusório do homem sobre o acaso e sobre a natureza, são obviamente incapazes de controlar a realidade.

Para cada invenção do progresso humano, há sempre uma catástrofe proporcional ao benefício que ela oferece. Quando o homem inventou a bicicleta, ele também inventou o tombo de bicicleta. Quando inventou o carro, o acidente de carro. O avião, o acidente de avião. E assim por diante, até a energia nuclear. Quanto mais próximo do céu ele tentou chegar, mais as catástrofes o levaram ao inferno.

Segundo ele, o desafio não está em tentar descobrir onde a racionalidade errou, mas simplesmente admitir que a própria racionalidade é falha. Que a vida é muito maior do que ela.

O homem não está verdadeiramente preocupado em “salvar o planeta”, mas sim em lutar contra a sua própria finitude, em salvar a si mesmo. A vida, com ou sem seres humanos, continua. Formas de vida se extinguem para dar origem a outras formas. A única coisa que se sabe é que nada é permanente.

Nessa linha de raciocínio, ele disse que a afetividade positiva do pensamento trágico deseja e espera “pelo pior”. O pior, nesse sentido, é o próprio acaso.

É como quando num momento de alegria, desejamos viver a vida toda de novo, exatamente da mesma forma, com todas as suas tragédias, porque, enfim, está é a vida.

A idéia da catástrofe, por outro lado, infunde mais culpa e ressentimento no homem, que deseja “consertar” sua natureza, almejando um projeto de futuro melhor, controlado por ele, por meio da racionalidade. Isso esvazia o ser humano de sua própria potência, porque nega sua natureza.

Por outro lado, desejar o “pior” parte de uma afetividade positiva que integra todos os aspectos do ser humano e o fortalece.

Os filósofos de plantão que me perdoem pela simplificação. Talvez eu tenha atropelado os conceitos, mas essa foi a forma como eu entendi. E, filosofês ou não, isso fez sentido pra mim.

Porque ficar me sentindo culpada por andar de carro ou por consumir lâmpadas econômicas tóxicas que não podem ser recicladas não faz muito bem pra minha saúde, não…

Se em vez dessa militância baseada na afetividade negativa, na crença de que nosso projeto deu errado e que precisamos nos esforçar para “salvar o planeta”, a gente esforçasse mais para ser feliz nesse momento, abraçando a vida tal como ela é – riso e dor e morte e acaso-, acho que o contentamento e a alegria decorrentes seriam muito mais benéficos para o ambiente ao nosso redor do que uma lâmpada fluorescente.

Até porque quando inventamos a lâmpada, também inventamos a queda da lâmpada.

E se o pior é a vida – com lâmpadas que quebram, brisas e tempestades, sol e chuva, nascimento e morte -, que venha o pior!

água doce

rio profundo de águas negras
(e doces) mistérios da criação

palavras, de pés molhados,
na margem pescam em vão

dele eu bebo; e nele me afogo
em mim só há fogo, ar e sal

a água onde vivo é mar
que do rio vem
e do rio é desigual

é lágrima e suor de amar
nas línguas traduzida:

onda, vaga arrebentação
do som primordial

só entre as palavras,
escondida,
a água doce saliva

namorico

rolinha em cima do muro
columbina diz pra pierrô:
– jura que me ama?
– juro! – ele falou

(o amor está no ar…)

e trocam mimos
e catam pulgas
e beijam no bico
e fazem ninho

em seu namorico
de passarinho

***

sério, esses bichinhos se chamam Columbina talpacoti

maritaca

essas danadinhas gostam de uma árvore aqui da rua, que tem vagens enormes. ouvi a algazarra e fui lá fotografar, mas depois da primeira foto elas ouviram os gritos de outras maritacas mais ao longe e saíram em debandada. só saiu essa, escondidinha.

tarde ensolarada,
a maritaca trina
qual uma matraca:
hakuna matata