andar com o pé eu voo

eloise de vylder

Arquivo para poesia

a morte

O pescador na lida sabe que a morte
É a água doce quando encontra o sal:
Rico ecossistema, de vida sem igual.
Peixes de dois mundos encontram alimento
E caem na mesma rede, não importa a sorte;
Aceitam sua salobra sina sem lamento:
A água da foz é bênção e maldição.

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frente fria bem organizada

nuvens avançando como bandos de aves migratórias, em geometrias impecáveis que revelam as estruturas de átomos e moléculas;

o vapor que antes de se tornar água descreve um redemoinho coreografado qual concha de nautilus;

a proporção áurea guardada no espaço entre um pingo de chuva e outro;

raios desenhando no céu segmentos de parábolas que revelam as equações por trás de toda a criação.

e o som do trovão…  propagado em ondas tão regulares que podem ser usadas para calcular a distância entre os homens, ou entre eles e o céu.

raio

angico

Fogaréu dentro que não deixa ver o céu…
Na paisagem queimada acre-esfumaçada
Tem um broto. – Sempre tem um broto que teima. – Broto de angico
Com duas folhas memória de cotilédones,
Olha pra mim como se dissesse:
“Olha por mim!”
E na sua frágil companhia
Caminho até o fim do dia
Pela paisagem, desolada,
Procurando corpos
Identificando espécimes
Contando troncos:
Embaúba, guapuruvu, paineira,
aroeira, acácia, jequitibá…
Desenhando com carvão
Na terra abatida, no duro do chão,
Fantasmas de árvores que foram
Ou que poderiam ter sido.
Que só com essa mágoa consigo
Derramar uma lágrima
No sulco da mão
Para regar o pé
do angico que me guarda

água doce

rio profundo de águas negras
(e doces) mistérios da criação

palavras, de pés molhados,
na margem pescam em vão

dele eu bebo; e nele me afogo
em mim só há fogo, ar e sal

a água onde vivo é mar
que do rio vem
e do rio é desigual

é lágrima e suor de amar
nas línguas traduzida:

onda, vaga arrebentação
do som primordial

só entre as palavras,
escondida,
a água doce saliva

nem tudo passarinho

o desespero pousa, demora
ameaça, faz que não passa

pausa, em descompasso

investigo a palavra, a fera:
falta de esperança e de espera

brujería

madrugada, perguntou-me a coruja
se acredito ou não en las brujas.
respondi que não, e tenho dito,
pero que las hay… ai ai!

namorico

rolinha em cima do muro
columbina diz pra pierrô:
– jura que me ama?
– juro! – ele falou

(o amor está no ar…)

e trocam mimos
e catam pulgas
e beijam no bico
e fazem ninho

em seu namorico
de passarinho

***

sério, esses bichinhos se chamam Columbina talpacoti