andar com o pé eu voo

eloise de vylder

uma noite, um lugar-comum

Quando estivermos acampados sobre a rocha, de mãos dadas, cobertos de escuridão e estrelas, com voz trêmula vou lhe falar da beleza fugidia de tudo isto – mãos que se unem e estrelas que brilham. (Enquanto o vento carrega nossas palavras pelo vale iluminado, sobre uma constelação de lâmpadas acesas.) E vou olhar para as linhas que se desenham no canto dos seus olhos, por onde já escorreram sorrisos e lágrimas, com um misto de ternura e temor.

Tudo isto não há de ser nada, você dirá. Tudo isto não há de ser nada… diante da eternidade desse momento.

E respiraremos fundo verdade e ilusão.

gosto…

do monólogo final do personagem Lester no filme “Beleza Americana”…

Lester Burnham: [narrating] I had always heard your entire life flashes in front of your eyes the second before you die. First of all, that one second isn’t a second at all, it stretches on forever, like an ocean of time… For me, it was lying on my back at Boy Scout camp, watching falling stars… And yellow leaves, from the maple trees, that lined my street… Or my grandmother’s hands, and the way her skin seemed like paper… And the first time I saw my cousin Tony’s brand new Firebird… And Janie… And Janie… And… Carolyn. I guess I could be pretty pissed off about what happened to me… but it’s hard to stay mad, when there’s so much beauty in the world. Sometimes I feel like I’m seeing it all at once, and it’s too much, my heart fills up like a balloon that’s about to burst… And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can’t feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life… You have no idea what I’m talking about, I’m sure. But don’t worry… you will someday.

**

Sempre ouvi dizer que a vida inteira passa como um flash diante dos nossos olhos no segundo antes de morrermos. Antes de mais nada, esse um segundo não é um segundo em absoluto, ele se estende para sempre, como um oceano de tempo… Para mim, foi deitar no chão do acampamento dos escoteiros, olhando estrelas cadentes… E folhas amareladas, das árvores que se enfileiravam na minha rua… Ou as mãos da minha avó, e como sua pele parecia papel… E a primeira vez que vi meu primo Tony com seu Firebird novinho em folha… E Janie… E Janie… E… Carolyn. Acho que eu poderia estar puto com o que aconteceu comigo… mas é difícil ficar com raiva quando há tanta beleza no mundo. Às vezes eu sinto como se estivesse vendo tudo de uma vez, e é muita coisa, meu coração se enche como um balão prestes a estourar… E então eu me lembro de relaxar, e parar de me apegar, então tudo flui através de mim como chuva, e não consigo sentir nada além de gratidão por cada um dos momentos da minha pequena vida besta… Você não tem idéia do que estou falando, tenho certeza. Mas não se preocupe… um dia terá.

branco, lilás, dourado

quantas vezes dá
pra descrever o brilho
do sol no manacá?

um desejo

células-tronco, blackberry, fundos hedge, google marte, escova progressiva de chocolate, total flex, hidra lyss, anti-frizz, twitter, plástica de nariz…

como eu gostaria que tudo fosse um tiquinho só mais simples.

alguns segundos de uma tarde de quinta-feira

Meio macambúzia, no quintal, como se contasse pingos, olho para a chuva miúda que cai quase ininterrupta há quatro dias quando um beija-flor de rabo branco corta o espaço em direção à flor vermelho-vivo do hibisco. O olhar se ilumina e acompanha o bater de asas e o bico que sorve o néctar demoradamente. Com graça ele deixa a flor e pousa sobre o fio do varal, tirando a língua para fora repetidas vezes, num delicado lamber de beiços. Na cara até então fechada, o canto dos lábios esboça um leve movimento ascendente. A ave limpa as asas, com gestos precisos de fechar e abrir, talvez sacudindo uma gota d’água da qual não soube se esquivar. Olha para o lado, hesita. Investiga meu olhar e o resto do mundo ao redor. Mas logo voa, com aquele tipo de delicadeza que não faz distinção entre movimento e repouso.  Inesperada, uma exclamação silenciosa dura o intervalo entre a sístole e a diástole: Ele vem em minha direção!

Mas, aaah… Nada disso… Apenas mata a curiosidade em relação aos prendedores de roupa coloridos e parte novamente em direção às flores de hibisco. Confunde-se com a folhagem, deixando o meu campo de visão. No rosto, o sorriso ainda pousa largo.

beijaflorrabobranco

(peguei essa foto – excepcional – na internet há algum tempo e peço perdão ao autor se não consigo encontrar mais o endereço do site para dar o devido crédito.)

instantâneo em dó menor

na mão do menino, o peixe dourado se agita numa porção de água cercada de plástico por todos os lados – assombrado por visões distorcidas de um oceano de ar.

goldfish1

elementar

descobri que só lá fora eu vivo, sem teto nem parede. viver é pele: sob o sol, contra o vento, debaixo de chuva, sobre a grama… o resto é morte lenta e civilizada.