desmatar – presente do indicativo

Eu como carne,
Tu comes carne,
Ele come carne.
Nós consumimos,
Vós produzis,
“Eles” desmatam.

thay

o homem mais sábio que eu conheço
tem olhar de mãe e sorriso de criança
e diz coisas tão simples quanto é simples respirar

melancia

acho que devia ser melância, pra ter mais redondância.

(dá pra perceber que a inspiração não dá mais as caras por aqui?)

dormência

Há toda uma botânica das histórias, uma germinação necessária entre o viver e o contar. Somos semeados de bênçãos e perdas – que brotam palavras, frondejam orações, florescem romances. Luz e água e húmus sintetizam-se em seiva e sombra. Às vezes o solo embala a semente em sono e o embrião sonha com chuva por toda uma estação. Até que uma gota d’água desperte a genética inexorável do vicejar.

mitos familiares v

Tio Hubert comprou um celeiro e transformou em casa. Vendeu a casa e construiu um veleiro. Pegou o veleiro e viajou o mundo inteiro, mulher e filhos na garupa. Se tudo isso já era motivo para minha idolatria, imagine quando me contaram que ele fugiu com o circo na juventude! Dizem que se apaixonou pela moça da corda-bamba… É claro…

mitos familiares iv

Depois de almoçar um belo coq au vin, meu avô belga deitou-se para uma siesta e não levantou mais. Só que antes disso ele abriu as gaiolas e matou seus três canarinhos. Medo de voar sozinho, penso eu…

mitos familiares iii

Vó Cida, que meu pai chamava de Dona Apa, era são-paulina roxa. Quando viajava para o meio do mato não faltava o radinho de pilha, que sintonizava com devoção e estática em dia de jogo. Extática com qualquer escanteio.

mitos familiares ii

Tio Paulo só comia arroz, feijão, bife e batata-frita, todo santo dia – sete na semana, 365 no ano. Se não tivesse batata-frita, ele mesmo arregaçava as mangas e punha-se a descascar. As batatas e a mulher.

mitos familiares i

“Tio Nenê era vesgo porque diz-que quando era criança engoliu um prego”. É o que contam do pintor consagrado da família, impressionista, que morreu aos 101 anos. Impressionante.

a maçã (samsara)

Por que não se convencer, vez por todas, que felicidade não vem com camiseta de brinde, beijo ofegante ou anúncio em alto-falante? Ela não rima com toda essa roda-gigante. Já dei espiadela, de soslaio, e até sei seu endereço: é um conjugadinho modesto para além do parque das distrações. Mas lembrar o caminho, outros quinhentos… Com tantas luzes coloridas e velozes, música de realejo e a promessa de nuvens de algodão-doce, nada feito. Às vezes a consciência lampeja que voltar para casa é a única opção. Mas ignoro como quem negocia cinco minutos de despertador… É que logo ali brilha, vermelho-caramelada, uma maçã-do-amor.

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