jean
13 mai 2011 Deixe um comentário
fazia tempo que eu não chorava. mas o menino pobre que na fila do supermercado me pediu para pagar o arroz, o feijão e o óleo que ele ia levar para a mãe, com um ar acuado e um constrangimento que mal cabia dentro da sua pouca idade, tocou dentro de mim algo mais profundo do que qualquer mal-estar pequeno burguês que já mereceu lágrima um dia. o nome dele era jean. que os anjos o protejam e a todas as crianças como ele.
a morte
03 ago 2009 2 Comentários
em natureza, poesia, vida-morte-vida
O pescador na lida sabe que a morte
É a água doce quando encontra o sal:
Rico ecossistema, de vida sem igual.
Peixes de dois mundos encontram alimento
E caem na mesma rede, não importa a sorte;
Aceitam sua salobra sina sem lamento:
A água da foz é bênção e maldição.
desmatar – presente do indicativo
19 jun 2009 1 Comentário
Eu como carne,
Tu comes carne,
Ele come carne.
Nós consumimos,
Vós produzis,
“Eles” desmatam.
thay
09 jun 2009 Deixe um comentário
o homem mais sábio que eu conheço
tem olhar de mãe e sorriso de criança
e diz coisas tão simples quanto é simples respirar
dormência
24 mai 2009 Deixe um comentário
Há toda uma botânica das histórias, uma germinação necessária entre o viver e o contar. Somos semeados de bênçãos e perdas – que brotam palavras, frondejam orações, florescem romances. Luz e água e húmus sintetizam-se em seiva e sombra. Às vezes o solo embala a semente em sono e o embrião sonha com chuva por toda uma estação. Até que uma gota d’água desperte a genética inexorável do vicejar.
mitos familiares v
22 fev 2009 Deixe um comentário
Tio Hubert comprou um celeiro e transformou em casa. Vendeu a casa e construiu um veleiro. Pegou o veleiro e viajou o mundo inteiro, mulher e filhos na garupa. Se tudo isso já era motivo para minha idolatria, imagine quando me contaram que ele fugiu com o circo na juventude! Dizem que se apaixonou pela moça da corda-bamba… É claro…
mitos familiares iv
22 fev 2009 Deixe um comentário
Depois de almoçar um belo coq au vin, meu avô belga deitou-se para uma siesta e não levantou mais. Só que antes disso ele abriu as gaiolas e matou seus três canarinhos. Medo de voar sozinho, penso eu…
mitos familiares iii
22 fev 2009 Deixe um comentário
Vó Cida, que meu pai chamava de Dona Apa, era são-paulina roxa. Quando viajava para o meio do mato não faltava o radinho de pilha, que sintonizava com devoção e estática em dia de jogo. Extática com qualquer escanteio.
mitos familiares ii
22 fev 2009 Deixe um comentário
Tio Paulo só comia arroz, feijão, bife e batata-frita, todo santo dia – sete na semana, 365 no ano. Se não tivesse batata-frita, ele mesmo arregaçava as mangas e punha-se a descascar. As batatas e a mulher.
mitos familiares i
22 fev 2009 Deixe um comentário
“Tio Nenê era vesgo porque diz-que quando era criança engoliu um prego”. É o que contam do pintor consagrado da família, impressionista, que morreu aos 101 anos. Impressionante.